quarta-feira, agosto 17, 2005

Correio Braziliense - Brasília-DF, 16/08/2005


Protesto e confusão
Dois alunos são presos e se machucam durante manifestação contra o aumento das passagens de ônibus. Policial também acabou ferido

Manifestação de estudantes, ligados ao Movimento Nacional pelo Passe Livre (MPL) no Distrito Federal, terminou ontem em confronto entre jovens e policiais militares. O grupo reivindica a isenção do pagamento das tarifas de ônibus para os alunos e lutam contra o aumento nas passagens do transporte público do DF. Dois universitários foram presos e ficaram feridos. Um policial militar acabou agredido e um carro da PM danificado. Cerca de cem manifestantes saíram da 606 Norte em direção à Rodoviária do Plano Piloto e bloquearam parte da pista, sentido Norte/Sul.

João Paulo Marra Denófrio, 19 anos, e Luan Grisólia, 22, afirmaram que foram agredidos pelos PMs. Eles negaram a acusação de terem danificado a patrulha e de resistir à prisão. João Paulo foi indiciado por perturbação do trabalho e sossego alheio. Luan, por dano ao patrimônio público. “Eu não resisti à prisão. Resisti ao espancamento”, afirma João Paulo, estudante de Ciências Sociais da UnB. Luan reclamou que estava detido e algemado. De acordo com a servidora pública Eunice Luísa, 44, que passava pelo local, a polícia agiu de forma violenta. “Eles chutaram e bateram. Foi uma brutalidade”, disse.

A confusão começou nas proximidades do Colégio Cean, na 606 Norte, quando a polícia tentava impedir que os manifestantes invadissem a pista em sentido contrário (Sul/Norte). Na versão dos policiais, um dos estudantes teria chutado uma patrulha do 3º Batalhão da PM (Asa Norte). Outros jovens tentaram defender o colega. Já os estudantes alegam que fizeram uma manifestação pacífica, e polícia teria sido “truculenta”. “Apanhamos dos manifestantes com paus. A polícia usou a força física apenas para contê-los. Nenhuma arma foi utilizada”, afirma o 3º sargento Daniel Moreira, do 3º BPM, agredido no pé direito.

Sem líderes
O delegado Antônio Coelho, titular da 2ª DP (Asa Norte), abriu inquérito policial para apurar o caso. “Os estudantes querem a democracia, mas não respeitam as instituições públicas. Os dois foram autuados em flagrante e responderão pelos crimes em liberdade. As informações que tivemos são que os manifestantes partiram para cima dos policiais”, destaca Coelho. João Paulo, Luan e o sargento Moreira foram encaminhados ao Instituto de Medicina Legal (IML). “Mas só ao final da investigações saberemos quem são os verdadeiros agressores,” diz.

O grupo de estudantes é inspirado no Movimento Zapatista (México), segundo Leila Saraiva, 17, namorada de João Paulo. O MPL se auto-intitula horizontal e apartidário. Não há líderes instituídos. “Em Florianópolis (SC) e Vitória (ES), as manifestações surtiram efeito. A intenção é fazer o mesmo em Brasília”, conta. O MPL promete mais protestos amanhã, a partir das 18h, na Rodoviária. No final da tarde de ontem, eles tentaram fechar as vias. Para o major Nevton Pereira Júnior, comandante da 7ª Cpmind, a manifestação é desnecessária. “Eles só causam transtorno para os usuários da Rodoviária”, avalia.

PEDIDO DE LIMINAR
O Ministério Público do Distrito Federal apresentou ação civil pública com pedido de liminar contra o Governo do Distrito Federal (GDF), o DFTrans e sete empresas de transporte público para proibir a aplicação de penalidades aos usuários do passe estudantis em casos de má utilização. Outras duas ações foram ajuizadas contra as viações. Uma delas se baseia em relatos de estudantes em relação às dificuldades enfrentadas para adquirir o passe diante da exigência de documentos, como a escritura da casa, pelas empresas.