Correio da Bahia - Salvador-BA, 29/09/2005
Valor da nova tarifa foi definido por consenso
Para chegar à passagem de R$1,70, prefeitura se baseia em cálculos referentes ao Índice de Preço ao Consumidor
Estudantes estão tendo uma ativa participação na polêmica do reajuste de ônibus
O secretário municipal de Transporte e Infra-estrutura, Nestor Duarte, definiu a decisão em torno do novo valor da tarifa como fruto de um consenso entre todas as instâncias presentes na reunião. "Seguramos o valor enquanto pudemos, num período de nove meses da atual gestão, e continuaremos com o propósito de discutir uma tarifa socialmente justa e um serviço digno", disse ele, acrescentando que o reajuste para R$1,70 é de 13%, menor que o último aumento do diesel (14%) e do salário mínimo (25%) nos últimos dois anos, período em que a tarifa esteve congelada. Para chegar à tarifa de R$1,70, a prefeitura se baseou em cálculos referentes ao Índice de Preço ao Consumidor (IPCA), que leva em conta as condições socioeconômicas da população e não na habitual planilha de custos que acusava valores próximos a R$2,20 - não aceito pela população.
Duarte reiterou que, após a cassação na Justiça da liminar que autorizava o aumento para R$2,20 e do acerto da tarifa em R$1,70, continua o empenho em torno da criação do Conselho Municipal de Transporte, com previsão para começar a funcionar em aproximadamente 15 dias. A majoração da tarifa, inclusive, vem acompanhada de exigências que serão cobradas pelos segmentos representados no conselho, como a renovação da frota de ônibus em Salvador, melhorias referentes à acessibilidade nos coletivos, o combate à fraude e a revisão da questão das gratuidades. "Sabemos que todo aumento não deixa de ser desagradável, mas contamos com a compreensão da população", diz o secretário, lembrando ainda que outras ações estão sendo providenciadas paralelamente, como a instalação da bilhetagem eletrônica no transporte urbano e a criação de corredores exclusivos para ônibus.
Presente na reunião que culminou com a decisão pela nova tarifa, o presidente da União dos Estudantes da Bahia (UEB), Juremar Oliveira, afirmou que o cálculo do preço da passagem com base no IPCA foi um argumento importante para a aceitação dos movimentos estudantis em relação ao valor de R$1,70 - embora reconheça que qualquer aumento não deixa de ser prejudicial. "Mas o diálogo está aberto e vamos consolidar essa discussão no Conselho Municipal de Transporte, pois não abrimos mão de que ele seja aberto e funcione efetivamente. Vamos cobrar por isso", falou. Entre outras ações, o conselho deverá discutir, segundo ele, alternativas para a desoneração da tarifa, extinguindo as gratuidades em excesso. "Queremos que os empregadores paguem o transporte de seus profissionais, o que ajudaria a desonerar a tarifa em 7% a 8%, segundo estudos", completou.
Orientação - Juremar Oliveira disse ainda que a orientação das entidades estudantis é de que não haja mais bloqueios no trânsito como forma de protesto pelo aumento na tarifa. Ao invés disso, os movimentos deverão promover mobilizações unificadas em locais específicos, sem paralisar a cidade e sem prejudicar a população. Ontem, por exemplo, não houve protestos, mesmo com o anúncio da nova tarifa. Por outro lado, uma plenária de estudantes está marcada para amanhã à tarde, com o objetivo de definir os rumos da ação estudantil. Os jovens também solicitam redução do preço cobrado pelo Setps na emissão da segunda via do smart-card (cartão da meia-passagem) e que a frota de ônibus em Salvador seja renovada.
Enquanto isso, o superintendente do Setps, Horácio Brasil, considera que a decisão por uma tarifa R$0,20 mais cara é o começo de um processo que passa ainda pela instalação do Conselho Municipal de Transporte, "no qual se deve buscar a tarifa justa tanto para a população quanto para os empresários". Ele espera que o anunciado conselho realmente consiga combater as fraudes e rever a questão das gratuidades. Por outro lado, Brasil diz que a ação na Justiça, que pleiteia o valor de R$2,20, continua correndo. A ação, inclusive, foi motivada por uma situação vista pelo Setps como de colapso nas empresas, "que já enfrentavam dificuldades até mesmo para honrar com o compromisso do 13º salário dos trabalhadores no final do ano".
***
HISTÓRICO
Reajuste da passagem de ônibus nos últimos dez anos em Salvador;
03/06/95 - R$0,50
03/06/96 - R$0,60
11/03/99 - R$0,80
02/09/2001 - R$1,00
19/05/2002 - R$1,10
13/01/2003 - R$1,30
31/08/2003 - R$1,50
***
CAPITAIS
Valor da passagem de ônibus em outras capitais;
São Paulo - R$2
Belo Horizonte - R$1,65
Recife - R$1,64
Rio de Janeiro - R$1,80
Curitiba - R$1,90
Porto Alegre - R$1,75
Salvador - R$1,70 a
partir de zero hora
de sábado)
Fortaleza - R$1,60
***
Gratuidade
Uma parcela de 37% de usuários detém a gratuidade no sistema de transporte público de Salvador, que também beneficia 95.783 universitários e 241.839 alunos do ensino fundamental e médio com a meia-passagem, nas redes pública e privada.
Reajuste esperado
Usuários de ônibus recebem com resignação a notícia
Usuários de ônibus consideram a nova tarifa aceitável, embora levem em conta que R$0,20 a mais fazem diferença
Diante do anúncio de que a tarifa de ônibus passará a custar R$1,70 a partir de zero hora do próximo sábado, as opiniões da população ainda estão divididas na capital baiana. Em um aspecto, porém, todos concordam: o preço acordado é melhor que R$2,20, valor pleiteado na Justiça pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps). A população usuária das linhas de ônibus, que necessita do transporte todos os dias, considera a nova tarifa aceitável, embora leve em conta que R$0,20 a mais fazem dife-rença. Nos colégios da cidade, alguns estudantes mantêm a postura contrária ao aumento, enquanto outros afirmam perceber o reajuste como algo inevitável, após dois anos com a passagem a R$1,50.
"Antes R$1,70 que R$2,20. Pelo menos é uma tarifa mais compatível com as condições financeiras das pessoas. E não podemos deixar de considerar que o óleo diesel subiu e tudo o mais também subiu", comentou o vendedor autônomo Adalton Santos Farias, 39 anos. Ele conta que pega dois a quatro ônibus por dia e não gasta menos que R$6 diariamente, entre a Pituba, o Imbuí e a Estação da Lapa. "Ainda bem que meus três filhos estudam perto de casa e não precisam de ônibus", completou. Já a universitária Uilma do Vale Vigas, 37 anos, ficou sabendo do aumento através da reportagem e afirmou que se trata de algo que todos já esperavam.
Ao salientar que o reajuste seria mesmo necessário, Uilma não deixou de considerar que R$0,20 a mais irão pesar no seu orçamento. "Seria um absurdo se a tarifa em R$2,20 vigorasse. O valor de R$1,70 é menos abusivo, mas se é um preço justo, eu realmente não sei", disse ela, usuária de uma média de dois ônibus por dia, no trecho entre a Boca do Rio e a Lapa. Enquanto isso, a notícia já circulava pelo Colégio Central, em Nazaré, onde os estudantes analisavam os prós e os contras da decisão pela majoração da tarifa, tomada durante uma reunião anteontem à noite entre o secretário municipal de Transporte e Infra-estrutura, Nestor Duarte, entidades estudantis, respresentantes do Ministério Público e do Setps.
Fraudes - Pedro Paulo Rosário dos Santos, 17 anos, aluno do 1º ano do ensino médio, acredita que as fraudes na meia-passagem de que os empresários tanto se queixam não vão diminuir nunca enquanto o preço das passagens continuar subindo. "Isso acontece porque ninguém agüenta pagar esses valores altos. Imagine uma mãe de família que tem vários filhos para dar dinheiro para o transporte e ainda tem que pagar aluguel e comprar comida?", diz ele, que mora na Avenida Suburbana, acorda todos os dias às 5h30 e pega o ônibus às 6h30 para estar no colégio às 7h30. "Eu pego dois ônibus diariamente e há dias em que eu tenho até dificuldade para pagar a passagem. Na verdade, o valor deveria ser até menos que R$1,50".
Já o estudante André Reis da Silva, 20 anos, aluno do 2º ano do Central, é portador de deficiência física e conta com passe-livre no acesso aos coletivos. Mesmo sem pagar, ele analisa que o aumento, apesar de ser oneroso ao bolso da maioria da população, deveria realmente acontecer, já que houve aumento do diesel e, independentemente de qualquer coisa, a frota de ônibus em Salvador precisa ser renovada. "As autoridades e os empresários podem aumentar o valor, mas têm que fazer a parte deles, melhorando o serviço, dando manutenção aos ônibus e renovando a frota, que já está ultrapassada. E no meu caso, que sou deficiente físico, espero que os coletivos tenham melhoras nas adaptações para os portadores de necessidades especiais", falou.
Câmara discute reajuste
O aumento da tarifa de ônibus foi o principal assunto das discussões, ontem, na Câmara Municipal de Salvador. O aumento, segundo muitos parlamentares, contraria uma das principais promessas do prefeito da João Henrique Carneiro, que declarou reiteradamente, desde a sua posse no início do ano, que em 2005 não haveria reajuste das tarifas de transporte público em Salvador. "O discurso do prefeito era demagogia, ele sabia que isso não era possível", destacou o vereador Palhinha (PTN), membro da Comissão de Transportes da Câmara.
De acordo com Palhinha, a prefeitura preferiu adotar um discurso que agrada à população, enquanto eram feitos os estudos para estabelecer o melhor valor para o reajuste. Com a participação da prefeitura, Câmara e sociedade civil nas negociações, o parlamentar acredita que o prefeito conseguiu a "blindagem perfeita". "Se ele desse este mesmo aumento no primeiro momento, teria a sua popularidade fragilizada", avaliou o parlamentar.
O vereador Alfredo Mangueira (PFL) também cobrou o cumprimento das promessas feitas pelo prefeito João Henrique Carneiro. "A manutenção do preço da tarifa foi uma das principais promessas de campanha do prefeito e, recentemente, ele confirmou seu posicionamento em inauguração no bairro do Beiru", comentou Mangueira. O vereador sugere que a prefeitura subsidie as passagens de ônibus, pelo menos, até o final do ano.
Alfredo Mangueira também afirmou que a Câmara serviu como uma intermediária para a prefeitura durante as discussões, já que quando as primeiras manifestações de estudantes chegaram à Praça Municipal, há 15 dias, o prefeito não estava no Palácio Thomé de Souza. "O Legislativo atendeu aos manifestantes para que a cidade não se tornasse um caos, mas o decreto é do prefeito", reafirmou. Para o vereador, este não é o melhor momento para um aumento de tarifas, já que outras alternativas para a desoneração do transporte público estão em discussão no Legislativo.
Quem também considerou precipitado o aumento anunciado para este final de semana foi o vereador Agenor Gordilho (PFL). O parlamentar defende a consolidação do Conselho Municipal de Transportes antes da aprovação da nova tarifa. "A população vive com salários achatados e não tem condições de arcar com um aumento de passagem neste momento". Gordilho defende, também, que o decreto municipal só seja assinado diante da garantia de renovação da frota e de melhoria do serviço prestado pelas empresas de transportes públicos de Salvador.
Valor da nova tarifa foi definido por consenso
Para chegar à passagem de R$1,70, prefeitura se baseia em cálculos referentes ao Índice de Preço ao Consumidor
Estudantes estão tendo uma ativa participação na polêmica do reajuste de ônibus
O secretário municipal de Transporte e Infra-estrutura, Nestor Duarte, definiu a decisão em torno do novo valor da tarifa como fruto de um consenso entre todas as instâncias presentes na reunião. "Seguramos o valor enquanto pudemos, num período de nove meses da atual gestão, e continuaremos com o propósito de discutir uma tarifa socialmente justa e um serviço digno", disse ele, acrescentando que o reajuste para R$1,70 é de 13%, menor que o último aumento do diesel (14%) e do salário mínimo (25%) nos últimos dois anos, período em que a tarifa esteve congelada. Para chegar à tarifa de R$1,70, a prefeitura se baseou em cálculos referentes ao Índice de Preço ao Consumidor (IPCA), que leva em conta as condições socioeconômicas da população e não na habitual planilha de custos que acusava valores próximos a R$2,20 - não aceito pela população.
Duarte reiterou que, após a cassação na Justiça da liminar que autorizava o aumento para R$2,20 e do acerto da tarifa em R$1,70, continua o empenho em torno da criação do Conselho Municipal de Transporte, com previsão para começar a funcionar em aproximadamente 15 dias. A majoração da tarifa, inclusive, vem acompanhada de exigências que serão cobradas pelos segmentos representados no conselho, como a renovação da frota de ônibus em Salvador, melhorias referentes à acessibilidade nos coletivos, o combate à fraude e a revisão da questão das gratuidades. "Sabemos que todo aumento não deixa de ser desagradável, mas contamos com a compreensão da população", diz o secretário, lembrando ainda que outras ações estão sendo providenciadas paralelamente, como a instalação da bilhetagem eletrônica no transporte urbano e a criação de corredores exclusivos para ônibus.
Presente na reunião que culminou com a decisão pela nova tarifa, o presidente da União dos Estudantes da Bahia (UEB), Juremar Oliveira, afirmou que o cálculo do preço da passagem com base no IPCA foi um argumento importante para a aceitação dos movimentos estudantis em relação ao valor de R$1,70 - embora reconheça que qualquer aumento não deixa de ser prejudicial. "Mas o diálogo está aberto e vamos consolidar essa discussão no Conselho Municipal de Transporte, pois não abrimos mão de que ele seja aberto e funcione efetivamente. Vamos cobrar por isso", falou. Entre outras ações, o conselho deverá discutir, segundo ele, alternativas para a desoneração da tarifa, extinguindo as gratuidades em excesso. "Queremos que os empregadores paguem o transporte de seus profissionais, o que ajudaria a desonerar a tarifa em 7% a 8%, segundo estudos", completou.
Orientação - Juremar Oliveira disse ainda que a orientação das entidades estudantis é de que não haja mais bloqueios no trânsito como forma de protesto pelo aumento na tarifa. Ao invés disso, os movimentos deverão promover mobilizações unificadas em locais específicos, sem paralisar a cidade e sem prejudicar a população. Ontem, por exemplo, não houve protestos, mesmo com o anúncio da nova tarifa. Por outro lado, uma plenária de estudantes está marcada para amanhã à tarde, com o objetivo de definir os rumos da ação estudantil. Os jovens também solicitam redução do preço cobrado pelo Setps na emissão da segunda via do smart-card (cartão da meia-passagem) e que a frota de ônibus em Salvador seja renovada.
Enquanto isso, o superintendente do Setps, Horácio Brasil, considera que a decisão por uma tarifa R$0,20 mais cara é o começo de um processo que passa ainda pela instalação do Conselho Municipal de Transporte, "no qual se deve buscar a tarifa justa tanto para a população quanto para os empresários". Ele espera que o anunciado conselho realmente consiga combater as fraudes e rever a questão das gratuidades. Por outro lado, Brasil diz que a ação na Justiça, que pleiteia o valor de R$2,20, continua correndo. A ação, inclusive, foi motivada por uma situação vista pelo Setps como de colapso nas empresas, "que já enfrentavam dificuldades até mesmo para honrar com o compromisso do 13º salário dos trabalhadores no final do ano".
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HISTÓRICO
Reajuste da passagem de ônibus nos últimos dez anos em Salvador;
03/06/95 - R$0,50
03/06/96 - R$0,60
11/03/99 - R$0,80
02/09/2001 - R$1,00
19/05/2002 - R$1,10
13/01/2003 - R$1,30
31/08/2003 - R$1,50
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CAPITAIS
Valor da passagem de ônibus em outras capitais;
São Paulo - R$2
Belo Horizonte - R$1,65
Recife - R$1,64
Rio de Janeiro - R$1,80
Curitiba - R$1,90
Porto Alegre - R$1,75
Salvador - R$1,70 a
partir de zero hora
de sábado)
Fortaleza - R$1,60
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Gratuidade
Uma parcela de 37% de usuários detém a gratuidade no sistema de transporte público de Salvador, que também beneficia 95.783 universitários e 241.839 alunos do ensino fundamental e médio com a meia-passagem, nas redes pública e privada.
Reajuste esperado
Usuários de ônibus recebem com resignação a notícia
Usuários de ônibus consideram a nova tarifa aceitável, embora levem em conta que R$0,20 a mais fazem diferença
Diante do anúncio de que a tarifa de ônibus passará a custar R$1,70 a partir de zero hora do próximo sábado, as opiniões da população ainda estão divididas na capital baiana. Em um aspecto, porém, todos concordam: o preço acordado é melhor que R$2,20, valor pleiteado na Justiça pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps). A população usuária das linhas de ônibus, que necessita do transporte todos os dias, considera a nova tarifa aceitável, embora leve em conta que R$0,20 a mais fazem dife-rença. Nos colégios da cidade, alguns estudantes mantêm a postura contrária ao aumento, enquanto outros afirmam perceber o reajuste como algo inevitável, após dois anos com a passagem a R$1,50.
"Antes R$1,70 que R$2,20. Pelo menos é uma tarifa mais compatível com as condições financeiras das pessoas. E não podemos deixar de considerar que o óleo diesel subiu e tudo o mais também subiu", comentou o vendedor autônomo Adalton Santos Farias, 39 anos. Ele conta que pega dois a quatro ônibus por dia e não gasta menos que R$6 diariamente, entre a Pituba, o Imbuí e a Estação da Lapa. "Ainda bem que meus três filhos estudam perto de casa e não precisam de ônibus", completou. Já a universitária Uilma do Vale Vigas, 37 anos, ficou sabendo do aumento através da reportagem e afirmou que se trata de algo que todos já esperavam.
Ao salientar que o reajuste seria mesmo necessário, Uilma não deixou de considerar que R$0,20 a mais irão pesar no seu orçamento. "Seria um absurdo se a tarifa em R$2,20 vigorasse. O valor de R$1,70 é menos abusivo, mas se é um preço justo, eu realmente não sei", disse ela, usuária de uma média de dois ônibus por dia, no trecho entre a Boca do Rio e a Lapa. Enquanto isso, a notícia já circulava pelo Colégio Central, em Nazaré, onde os estudantes analisavam os prós e os contras da decisão pela majoração da tarifa, tomada durante uma reunião anteontem à noite entre o secretário municipal de Transporte e Infra-estrutura, Nestor Duarte, entidades estudantis, respresentantes do Ministério Público e do Setps.
Fraudes - Pedro Paulo Rosário dos Santos, 17 anos, aluno do 1º ano do ensino médio, acredita que as fraudes na meia-passagem de que os empresários tanto se queixam não vão diminuir nunca enquanto o preço das passagens continuar subindo. "Isso acontece porque ninguém agüenta pagar esses valores altos. Imagine uma mãe de família que tem vários filhos para dar dinheiro para o transporte e ainda tem que pagar aluguel e comprar comida?", diz ele, que mora na Avenida Suburbana, acorda todos os dias às 5h30 e pega o ônibus às 6h30 para estar no colégio às 7h30. "Eu pego dois ônibus diariamente e há dias em que eu tenho até dificuldade para pagar a passagem. Na verdade, o valor deveria ser até menos que R$1,50".
Já o estudante André Reis da Silva, 20 anos, aluno do 2º ano do Central, é portador de deficiência física e conta com passe-livre no acesso aos coletivos. Mesmo sem pagar, ele analisa que o aumento, apesar de ser oneroso ao bolso da maioria da população, deveria realmente acontecer, já que houve aumento do diesel e, independentemente de qualquer coisa, a frota de ônibus em Salvador precisa ser renovada. "As autoridades e os empresários podem aumentar o valor, mas têm que fazer a parte deles, melhorando o serviço, dando manutenção aos ônibus e renovando a frota, que já está ultrapassada. E no meu caso, que sou deficiente físico, espero que os coletivos tenham melhoras nas adaptações para os portadores de necessidades especiais", falou.
Câmara discute reajuste
O aumento da tarifa de ônibus foi o principal assunto das discussões, ontem, na Câmara Municipal de Salvador. O aumento, segundo muitos parlamentares, contraria uma das principais promessas do prefeito da João Henrique Carneiro, que declarou reiteradamente, desde a sua posse no início do ano, que em 2005 não haveria reajuste das tarifas de transporte público em Salvador. "O discurso do prefeito era demagogia, ele sabia que isso não era possível", destacou o vereador Palhinha (PTN), membro da Comissão de Transportes da Câmara.
De acordo com Palhinha, a prefeitura preferiu adotar um discurso que agrada à população, enquanto eram feitos os estudos para estabelecer o melhor valor para o reajuste. Com a participação da prefeitura, Câmara e sociedade civil nas negociações, o parlamentar acredita que o prefeito conseguiu a "blindagem perfeita". "Se ele desse este mesmo aumento no primeiro momento, teria a sua popularidade fragilizada", avaliou o parlamentar.
O vereador Alfredo Mangueira (PFL) também cobrou o cumprimento das promessas feitas pelo prefeito João Henrique Carneiro. "A manutenção do preço da tarifa foi uma das principais promessas de campanha do prefeito e, recentemente, ele confirmou seu posicionamento em inauguração no bairro do Beiru", comentou Mangueira. O vereador sugere que a prefeitura subsidie as passagens de ônibus, pelo menos, até o final do ano.
Alfredo Mangueira também afirmou que a Câmara serviu como uma intermediária para a prefeitura durante as discussões, já que quando as primeiras manifestações de estudantes chegaram à Praça Municipal, há 15 dias, o prefeito não estava no Palácio Thomé de Souza. "O Legislativo atendeu aos manifestantes para que a cidade não se tornasse um caos, mas o decreto é do prefeito", reafirmou. Para o vereador, este não é o melhor momento para um aumento de tarifas, já que outras alternativas para a desoneração do transporte público estão em discussão no Legislativo.
Quem também considerou precipitado o aumento anunciado para este final de semana foi o vereador Agenor Gordilho (PFL). O parlamentar defende a consolidação do Conselho Municipal de Transportes antes da aprovação da nova tarifa. "A população vive com salários achatados e não tem condições de arcar com um aumento de passagem neste momento". Gordilho defende, também, que o decreto municipal só seja assinado diante da garantia de renovação da frota e de melhoria do serviço prestado pelas empresas de transportes públicos de Salvador.

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