terça-feira, março 07, 2006

O Estado de São Paulo - São Paulo-SP, 07/03/2006


EMTU cassa linhas de empresário e as repassa para empresa dos filhos

Entre ambulantes que vendem de pinga a passe de ônibus, trabalhadores esperam pela condução no Largo da Batata, zona oeste. Os ônibus azuis seguem para 13 pontos do Embu, Grande São Paulo. Seria uma cena corriqueira, se não fosse escandalosa. A Viação Campo Limpo, operadora desses itinerários, está com todas as linhas cassadas desde 5 de janeiro por uma portaria da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU).

Só no ano passado, a companhia recebeu mais de 900 multas. A EMTU cobrou da Campo Limpo R$ 130 mil por falhas na prestação do serviço. "O grosso do problema estava na parte mecânica. Os ônibus deixavam a garagem, mas não terminavam o dia rodando", disse Pedro Luiz Machado, diretor de Gestão Operacional da EMTU.

Apesar dos problemas, a Campo Limpo segue operando. Logo depois de cassar a concessão da empresa, o governo convidou viações do Embu para assumirem o trabalho, a partir da primeira quinzena de fevereiro. Todas alegaram não ter condições de realizar o serviço.

Sem opção, a EMTU estendeu o convite a qualquer empresa. Depois de algum silêncio, surgiu uma proposta. Era da Empresa Urbana Santo André (Eusa), comandada pelos filhos do dono da Campo Limpo. Apesar de polêmica, a sucessão familiar deve ser concretizada e a Eusa assumirá itinerários e funcionários em 8 de maio.

Na Câmara do Embu, teme-se que a transferência de pai para filho apenas perpetue a precária situação do transporte intermunicipal. "Nosso medo é que a administração do negócio seja feita da mesma maneira irresponsável", disse a presidente da Casa, vereadora Maria das Graças (PT).

O proprietário da Campo Limpo, Baltazar José de Souza, é um dos grandes sonegadores de impostos do País. Segundo dados colhidos ontem no site do Ministério da Previdência Social, sua dívida ativa com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é de R$ 30 milhões.

"Estamos com um pé atrás. Mas nossa punição foi contra a empresa, e não contra Baltazar", admitiu Machado. Ele disse não acreditar que os problemas nos itinerários se repitam. "Estamos mudando a cara do transporte intermunicipal. Não vamos mais operar por linhas, mas por regiões. As concessões serão refeitas em breve."

Procurados, nem Baltazar nem seus filhos ou funcionários responsáveis pelas empresas citadas responderam aos pedidos de entrevista da reportagem.