segunda-feira, agosto 29, 2005

Correio Braziliense - Brasília-DF, 29/08/2005


O drama do transporte

Editorial:

O transporte público constitui o calcanhar-de-aquiles do Distrito Federal. Concebida na época do bum da indústria automobilística, a capital do Brasil projetou moradores formados de cabeça, tronco e rodas. Pistas largas e planas venceriam com facilidade as enormes distâncias que separam os diversos setores. O cenário é ideal para brasilienses com carro na garagem. Daí por que a população considera o veículo particular gênero de primeira necessidade. Lamentavelmente, porém, nem todos têm acesso ao bem. E aí reside o drama.

O transporte convencional é deficiente. Além de não responder à demanda de forma satisfatória, tem frota sucateada e cobra uma das tarifas mais elevadas do país. Sem ônibus à altura e com o alcance limitado do metrô, abriram-se caminhos para o transporte alternativo. De um lado, há os que têm permissão de circular. De outro, os piratas. No meio, os passageiros. Eles fazem as vezes do marisco que, na luta entre o rochedo e o mar, amarga a derrota.

Vans e carros clandestinos recolhem homens, mulheres e crianças nas paradas. Superlotados, andam em alta velocidade para disputar clientes, param em locais impróprios, mudam itinerários sem prévio aviso. Quem sai de casa não sabe se chegará ao trabalho a tempo nem se poderá voltar em horário civilizado. O ir e vir tornou-se sinônimo de martírio diário.

É um paradoxo. Os moradores da capital da República viraram reféns de aventureiros. Sem segurança e entregues a profissionais que atuam na ilegalidade, estão sujeitos a acidentes e perda da própria vida. O governo falha na fiscalização.

Pressionada, na semana passada a Secretaria de Transporte baixou portaria proibindo a circulação de vans na W3 e nas vias centrais de Taguatinga e Ceilândia. Divulgada a iniciativa, fiscais foram à rua. Mas horas antes de a medida entrar em vigor, uma liminar suspendeu-a. O mesmo ocorreu em setembro do ano passado. Incorrer no mesmo erro dá a impressão de despreparo e desorganização. Sobretudo, retarda possíveis soluções.

O xis da questão é a oferta de transporte público de qualidade. Em outras palavras: cobertura adequada, frota nova, manutenção sistemática, motoristas qualificados, pontualidade, horários que atendam a necessidade dos usuários. Ter condições de ir e vir constitui uma das principais preocupações da população. Os moradores do Plano Piloto, dos condomínios ou das cidades do Distrito Federal têm direito de usufruir de sistema de ônibus ou metrô capaz de lhes satisfazer a demanda. O governo tem obrigação de atendê-los. Essa é uma de suas funções.