segunda-feira, setembro 12, 2005

O Estado de São Paulo - São Paulo-SP, 12/09/2005


Ciclovias, do centro para a periferia
Prefeitura inclui bicicleta em plano de transporte e pode receber US$ 2 milhões do Banco Mundial para uma de 6 áreas cogitadas

Um plano para a construção de 104,7 quilômetros de faixas para bicicletas - 16 vezes mais do que existe hoje nas ruas da cidade - prevê ciclovias para dez bairros da periferia. A Prefeitura acaba de concluir um relatório em que identifica seis áreas com potencial para a construção imediata de ciclovias a custo baixo - pois dispensam desapropriações e grandes mudanças viárias. Elas são candidatas a receber uma verba de US$ 2 milhões (R$ 4,6 milhões), oferecida a fundo perdido ao Município pelo Global Environment Facility (GEF), administrado pelo Banco Mundial.

Diferentemente do que foi executado até agora - as quatro ciclovias existentes são opções de lazer em áreas nobres - , a proposta da Prefeitura é construir pela primeira vez na cidade vias para quem usa a bicicleta como meio de transporte. A demanda vem crescendo a cada ano. A última pesquisa Origem-Destino do Metrô revelou que o número de pessoas que usam a bicicleta para esse fim dobrou entre 1997 e 2002. São mais de 130 mil viagens por dia, mais que o número de viagens feitas por táxis.

Os ciclistas alvo do projeto são pessoas de baixa renda que viram na bicicleta uma alternativa mais econômica ao transporte coletivo, seja para percorrer todo ou parte do percurso. Não é à toa, portanto, que os locais sugeridos para as ciclovias no relatório - feito em parceria com o Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) - estejam na periferia e perto de terminais de ônibus, trem e metrô.

'Essa vinculação aos terminais é fundamental, porque a gente quer fomentar o uso da bicicleta dentro dessa visão de melhorar a mobilidade da população', afirmou uma das coordenadoras do estudo, Laura Ceneviva.

Das regiões selecionadas, duas são na zona leste, duas na sul, uma na norte e outra na oeste (veja ao lado), abrangendo bairros como Parelheiros, Freguesia do Ó, Butantã, Cidade Tiradentes e Guaianases.

DA COHAB AO TERMINAL

No extremo da zona leste, por exemplo, um dos projetos liga os conjuntos habitacionais ao único terminal de ônibus de Cidade Tiradentes. Na zona sul, em outro bolsão de pobreza, a faixa exclusiva para bicicletas leva a dois terminais de ônibus da região, Parelheiros e Varginha.

Em muitos casos, esses trajetos já são bem conhecidos dos moradores. 'Demos prioridade aos locais em que a população já usa a bicicleta, porque nesses casos há urgência em disciplinar o convívio nada harmonioso entre bicicletas e carros', disse a assessora técnica do projeto, Ana Hoffmann.

O estudante Yuri Lichtvan Marciniak, de 22 anos, ciclista desde 2000, já teve experiências desagradáveis no trânsito. 'Fui fechado por um ônibus em frente ao Shopping Paulista', conta. Levou 21 pontos no pulso direito. Mesmo assim, não desistiu de pedalar. Ontem, ele foi da Mooca, na zona leste, ao Estádio do Pacaembu, na zona oeste, em 50 minutos. 'Se viesse de condução, levaria duas horas.' Para Marciniak, as ciclovias deveriam ficar perto das avenidas principais.

DECISÃO

Para disputar a verba do GEF, a Prefeitura precisa escolher uma das seis áreas mapeadas e fazer um projeto-piloto mais detalhado. Para isso, o fundo liberou US$ 50 mil (R$ 115 mil). A idéia do secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, é que o prefeito José Serra (PSDB) escolha o local. A proposta será feita a ele amanhã, durante a apresentação do projeto. As ciclovias fazem parte de um programa mais amplo de melhoria do transporte e da qualidade do ar formulado neste ano pelo Município para pleitear US$ 15 milhões do GEF para vários setores do governo. O processo de análise, no entanto, é burocrático.

Uma decisão sobre a liberação dos US$ 2 milhões para as ciclovias - que não serão suficientes para executar as seis propostas - não deve sair antes de 2007. 'Para começar a executar algo em 2006, tem de ser com verba do Município', diz o secretário, que pedirá ao prefeito recursos para as ciclovias. A estimativa inicial de custo dos 104,7 km propostos é de R$ 10,8 milhões. O traçado mais barato é o da zona oeste: R$ 1,2 milhão por 9,9 km. Depois vem a norte, com 17,3 km e gasto de R$ 2,4 milhões. A leste é a área que precisará de maior investimento, R$ 4,2 milhões. Os 33,2 km da zona sul estão estimados em R$ 2,9 milhões.



300 km de pista foram engavetados em 25 anos

Nos últimos 25 anos, três grandes projetos de ciclovias foram feitos pela Prefeitura. Se tivessem saído do papel, São Paulo poderia ser bem diferente. Além dos quase desconhecidos 6 quilômetros de faixas exclusivas para ciclistas, a capital teria mais 300 quilômetros. O primeiro estudo foi feito em 1980, quando o mundo discutia formas alternativas de transporte, por causa da crise energética mundial. Indicouse a construção de uma ciclovia entre a Cidade Universitária e o Parque do Ibirapuera, de 7,7 quilômetros, sobre os canteiros centrais de avenidas, além de três estacionamentos ao longo do percurso.

Está no papel até hoje. No ano seguinte, foi elaborado um projeto mais amplo que, além da questão energética, já fazia referências à saturação da rede viária. Foram traçados 180 quilômetros de ciclovias que nunca saíram da gaveta. Em 1994, um novo mapeamento, o Projeto Ciclista, propunha 120 quilômetros, a maioria em acesso a parques e áreas de lazer. Vêm daí os 6 quilômetros que existem nas ruas e outros 20,4 quilômetros em parques.

Dez anos depois, foi a vez dos Planos Regionais Estratégicos, uma espécie de plano diretor das 31 subprefeituras. Na lista de obras, foram previstas dezenas de ciclovias, muitas para serem construídas em 2006. Mas nenhuma foi iniciada. Segundo o secretário do Verde, Eduardo Jorge, a maioria deve continuar assim, por falta de verba.

MOTOBOYS DO FUTURO

Sem ação do poder público, os ciclistas podem virar um problema bem parecido com o dos motoboys, dizem especialistas em trânsito e transporte. Para eles, a agilidade da Prefeitura será decisiva para evitar que a bicicleta colabore para o caos no trânsito. 'Erramos com os motoboys e não podemos repetir o erro. Se o poder público não disciplinar essa forma de transporte enquanto ela ainda é tímida, não vai conseguir fazê-lo mais tarde', afirma o conselheiro da Associação Brasileira de Medicina do Trânsito (Abramet) Alberto Branco.

A presença cada vez maior de ciclistas já é visível nas rua. Na região da Avenida Paulista, as bicicletas já disputam espaço com os motociclistas nas ruas e nas recepções dos prédios, para entregar comida e correspondência. Na internet, empresas especializadas nesse tipo de negócio se multiplicam. A explicação é que o serviço fica, em geral, mais barato que o de motofrete. 'O sucesso da bicicleta como meio de transporte requer uma mudança de comportamento da sociedade em relação ao ciclista e isso depende de uma campanha educativa em massa', afirma o coordenador do Grupo Técnico de Bicicletas da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Sérgio Bianco. Sem isso, alerta ele, o risco de a bicicleta aumentar o índice de acidentes de trânsito, seja o ciclista vítima ou agressor, é grande.



Pistas prontas são ociosas e malconservadas
Poucos ciclistas usufruem as quatro ciclovias de rua da cidade, que estão esburacadas e sem sinalização

As quatro ciclovias de rua existentes hoje na cidade são provas do descaso das administrações municipais com o assunto. Há 6 quilômetros de pistas que estão ociosas e em péssimo estado de conservação. A situação das sete ciclovias localizadas em parques é menos crítica.

Na Avenida Faria Lima, no Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste, a faixa exclusiva para ciclistas, com 1,3 quilômetro de extensão, foi invadida recentemente por pontos de ônibus, por causa das obras da nova linha do metrô. A interdição será temporária. Em outro trecho, no entanto, uma caçamba de entulho atravessa a pista. Na parte liberada, o piso está esburacado e o local é usado mais por pedestres e para caminhadas.

Buracos também não faltam na ciclovia da Avenida Sumaré, em Perdizes, zona oeste. Quem se aventura a dar umas pedaladas corre o risco de trombar com raízes de árvores que estouraram o piso. Por falta de manutenção e sinalização adequada, a pista é pouco usada por ciclistas.

A maior ciclovia de rua da cidade é também a mais ociosa. São 2,8 quilômetros na calçada do Parque do Ibirapuera, na Avenida IV Centenário. Não é preciso dizer que quem pretende andar de bicicleta prefere entrar no parque. A ciclovia, malconservada, é usada por ambulantes e moradores em busca de um passeio rápido, a maioria acompanhada de cachorro ou carrinho de bebê.