O Povo - Fortaleza-CE, 13/09/2005
Diagnóstico do sistema em Fortaleza
Foram seis meses de vai-e-vem dentro de ônibus, trens, táxis e vans. Entre irregularidades e insatisfações, a reportagem do O POVO mostrou como está o sistema de transporte público de Fortaleza na visão de usuários, especialistas e trabalhadores
O POVO fecha um ciclo onde expôs, durante uma viagem de seis meses, todos as nuances do transporte público de Fortaleza. Durante o mês de fevereiro embarcamos na lotação de problemas do transporte alternativo. Comprovamos a velocidade máxima que os veículos seguem em direção às irregularidades, em que os motoristas permanecem atrás do volante por até 18 horas diariamente. Um meio de locomoção que surgiu por uma exigência da própria população, mas que já nasceu ''errado'', segundo a opinião de acadêmicos da área de Engenharia de Transportes.
Ainda no mês de fevereiro, andamos nos ônibus que fazem as linhas com maior demanda da Capital. Visitamos os sete terminais por onde passam 1.137.163 pessoas por dia. Contamos as histórias desses usuários e traduzimos suas insatisfações. Mostramos a ineficiência das linhas e o suplício da população por uma vaga nos coletivos.
Bancos quebrados, lixo acumulado, buracos na pavimentação, banheiros sujos, idosos e seus direitos desrespeitados. Os terminais desencantam e irritam. Dentro dos ônibus aperto, mau-cheiro, irritação. O avesso do respeito entra e sai dos terminais sem qualquer explicação. Os gestores do sistema insistem, tudo ''é fiscalizado'', apesar dos flagrantes de ilegalidades e desrespeito.
Mas para nossa surpresa, no final do mês de fevereiro, o presidente do órgão gestor do transporte na época, João Bosco, fez um desabafo. Confessou não ter controle do dinheiro que passa pelas catracas dos ônibus e dos terminais. Os recursos na realidade são administrados Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) que envia relatórios à Empresa de Trânsito e Transporte Urbano S/A (Ettusa). A declaração gerou mal-estar entre a empresa e o sindicato e inclusive provocou os parlamentares de Fortaleza. Cogitou-se até na abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso.
Nas vias, a Ettusa continuou afirmando que não é omissa com relação à fiscalização. Mesmo quando O POVO encontrou os mototaxistas durante o mês de março. Um modal que envolve 2.211 trabalhadores regularizados, mas que nas ruas, costurando o trânsito, muitos estão fora da lei, sem os equipamentos obrigatórios ou tabela de preços. Mostramos os acidentes envolvendo os mototaxistas e o que diz a lei sobre a obrigatoriedade de uso dos equipamentos.
Ainda no mês de março destrinchamos o Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (BidFor1), considerado por muitos como a salvação do sistema de transporte da Capital. Um projeto que envolve US$ 142 milhões e que promete eficácia. As obras estão previstas para começar em novembro e incluem desde corredores com faixas exclusivas até paradas de ônibus com pisos elevados. Mas O POVO encontrou especialistas que contestam o programa. Disseram que é mal planejado.
A falta de planejamento parece um mal constante nas vias de Fortaleza. No mês de abril encontramos ruas e avenidas entupidas de táxis clandestinos. Motoristas que disputam o passageiro no grito e que chegam a cobrar o valor de uma passagem de ônibus por uma viagem. Para compensar burlam a lei, se autotransformando em lotações. Novamente, o órgão gestor promete rigor na fiscalização e destaca uma média de 25 apreensões de veículos irregulares por mês.
Por fim, durante os meses de julho e agosto, seguimos o trilho das duas linhas de trens que passam pela Região Metropolitana de Fortaleza. Entre as janelas quebradas, trens sucateados, estações comprometidas e reclamação. Elogios para a pontualidade e rapidez. Este mês de setembro O POVO se dedicou a um balanço de tudo isso com o debate realizado com representantes do sistema. Uma conclusão: muita coisa precisa mudar. (Vanessa Alcântara)
PONTO DE VISTA
Eu estava lá
Vanessa Alcântara
Difícil não sentir um aperto no peito, a boca seca, um frio na espinha, tudo migrando para o rosto que vai se tornando rubro. Uma sensação de que ninguém se importa com ninguém e cada qual que se vire para garantir o seu lugar, nem que seja num cantinho apertado, fedido, insuportavelmente quente. Difícil não sentir as presenças dos que estão se apertando, dos que anseiam por um fio de ar, dos que levam filhos e netos esmagados ao peito, dos que precisam usar o transporte coletivo de Fortaleza. Eu convivi com eles, compartilhei suas angústias, alegrias e compreensões. Escutei gritos, quase choros, indignações, insatisfações e grandes desilusões.
Táxis, ônibus, trens, vans e mototáxis. Todos com seu dolo, com seus pecados e suas incompetências. Na Fortaleza deformada por uma ocupação desordenada e transtorno de um sistema de transporte mal planejado estão cidadãos que não têm idéia dos direitos que possuem de ir e vir, em transportes que deveriam ser oferecidos por esta Capital, a preços acessíveis.
A lei segue no trilho errado e transforma vidas em peças de fábrica: andam, entram, se apertam, reclamam em vão, chegam, retornam, reclamam novamente, descem e esquecem. Outros dizem que não adianta exigir o mínimo de conforto. ''Porque não tem ninguém pra ouvir''. Eu acabei entrando nessa como intermediária, afinal não uso o transporte público porque tenho carro e, depois do que vi e ouvi, prezo muito por ele. Falei para quem de direito tem de ouvir e tive retornos que também escrevi.
Absolutamente nada mudou desde que comecei, há seis meses, a fazer essa série de reportagens. Os ônibus que entrei continuam desumanos, as vans nas quais viajei transbordam seres humanos, os trens que me levaram de Caucaia para Fortaleza derretem de ferrugem. Os mototaxistas que conversei insistem em piratear e zanzam pela cidade com suas irregularidades. E os táxis também. Uma facção que quer virar lotação.
Se tivesse de escolher entre todos que conheci para usar diariamente estaria numa sinuca de bico. Todos foram desenhados para que as pessoas se tornem inimigas, que garimpem o ódio entre si, que cheguem mal-humoradas, que retornem para casa bufando por terem de entrar num ônibus, trem, van ou em determinados táxis e mototáxis. Não gostaria de cultivar sentimentos tão torpes diariamente, porém se estou na tal sinuca opto pelo trem. Afinal os trilhos ainda garantem a pontualidade e uma certa segurança, apesar das pedradas dos inconseqüentes. Fico com ele mesmo aos pedaços, porque dizem por aí que em breve ele vai ter ar condicionado.
Diagnóstico do sistema em Fortaleza
Foram seis meses de vai-e-vem dentro de ônibus, trens, táxis e vans. Entre irregularidades e insatisfações, a reportagem do O POVO mostrou como está o sistema de transporte público de Fortaleza na visão de usuários, especialistas e trabalhadores
O POVO fecha um ciclo onde expôs, durante uma viagem de seis meses, todos as nuances do transporte público de Fortaleza. Durante o mês de fevereiro embarcamos na lotação de problemas do transporte alternativo. Comprovamos a velocidade máxima que os veículos seguem em direção às irregularidades, em que os motoristas permanecem atrás do volante por até 18 horas diariamente. Um meio de locomoção que surgiu por uma exigência da própria população, mas que já nasceu ''errado'', segundo a opinião de acadêmicos da área de Engenharia de Transportes.
Ainda no mês de fevereiro, andamos nos ônibus que fazem as linhas com maior demanda da Capital. Visitamos os sete terminais por onde passam 1.137.163 pessoas por dia. Contamos as histórias desses usuários e traduzimos suas insatisfações. Mostramos a ineficiência das linhas e o suplício da população por uma vaga nos coletivos.
Bancos quebrados, lixo acumulado, buracos na pavimentação, banheiros sujos, idosos e seus direitos desrespeitados. Os terminais desencantam e irritam. Dentro dos ônibus aperto, mau-cheiro, irritação. O avesso do respeito entra e sai dos terminais sem qualquer explicação. Os gestores do sistema insistem, tudo ''é fiscalizado'', apesar dos flagrantes de ilegalidades e desrespeito.
Mas para nossa surpresa, no final do mês de fevereiro, o presidente do órgão gestor do transporte na época, João Bosco, fez um desabafo. Confessou não ter controle do dinheiro que passa pelas catracas dos ônibus e dos terminais. Os recursos na realidade são administrados Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) que envia relatórios à Empresa de Trânsito e Transporte Urbano S/A (Ettusa). A declaração gerou mal-estar entre a empresa e o sindicato e inclusive provocou os parlamentares de Fortaleza. Cogitou-se até na abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso.
Nas vias, a Ettusa continuou afirmando que não é omissa com relação à fiscalização. Mesmo quando O POVO encontrou os mototaxistas durante o mês de março. Um modal que envolve 2.211 trabalhadores regularizados, mas que nas ruas, costurando o trânsito, muitos estão fora da lei, sem os equipamentos obrigatórios ou tabela de preços. Mostramos os acidentes envolvendo os mototaxistas e o que diz a lei sobre a obrigatoriedade de uso dos equipamentos.
Ainda no mês de março destrinchamos o Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (BidFor1), considerado por muitos como a salvação do sistema de transporte da Capital. Um projeto que envolve US$ 142 milhões e que promete eficácia. As obras estão previstas para começar em novembro e incluem desde corredores com faixas exclusivas até paradas de ônibus com pisos elevados. Mas O POVO encontrou especialistas que contestam o programa. Disseram que é mal planejado.
A falta de planejamento parece um mal constante nas vias de Fortaleza. No mês de abril encontramos ruas e avenidas entupidas de táxis clandestinos. Motoristas que disputam o passageiro no grito e que chegam a cobrar o valor de uma passagem de ônibus por uma viagem. Para compensar burlam a lei, se autotransformando em lotações. Novamente, o órgão gestor promete rigor na fiscalização e destaca uma média de 25 apreensões de veículos irregulares por mês.
Por fim, durante os meses de julho e agosto, seguimos o trilho das duas linhas de trens que passam pela Região Metropolitana de Fortaleza. Entre as janelas quebradas, trens sucateados, estações comprometidas e reclamação. Elogios para a pontualidade e rapidez. Este mês de setembro O POVO se dedicou a um balanço de tudo isso com o debate realizado com representantes do sistema. Uma conclusão: muita coisa precisa mudar. (Vanessa Alcântara)
PONTO DE VISTA
Eu estava lá
Vanessa Alcântara
Difícil não sentir um aperto no peito, a boca seca, um frio na espinha, tudo migrando para o rosto que vai se tornando rubro. Uma sensação de que ninguém se importa com ninguém e cada qual que se vire para garantir o seu lugar, nem que seja num cantinho apertado, fedido, insuportavelmente quente. Difícil não sentir as presenças dos que estão se apertando, dos que anseiam por um fio de ar, dos que levam filhos e netos esmagados ao peito, dos que precisam usar o transporte coletivo de Fortaleza. Eu convivi com eles, compartilhei suas angústias, alegrias e compreensões. Escutei gritos, quase choros, indignações, insatisfações e grandes desilusões.
Táxis, ônibus, trens, vans e mototáxis. Todos com seu dolo, com seus pecados e suas incompetências. Na Fortaleza deformada por uma ocupação desordenada e transtorno de um sistema de transporte mal planejado estão cidadãos que não têm idéia dos direitos que possuem de ir e vir, em transportes que deveriam ser oferecidos por esta Capital, a preços acessíveis.
A lei segue no trilho errado e transforma vidas em peças de fábrica: andam, entram, se apertam, reclamam em vão, chegam, retornam, reclamam novamente, descem e esquecem. Outros dizem que não adianta exigir o mínimo de conforto. ''Porque não tem ninguém pra ouvir''. Eu acabei entrando nessa como intermediária, afinal não uso o transporte público porque tenho carro e, depois do que vi e ouvi, prezo muito por ele. Falei para quem de direito tem de ouvir e tive retornos que também escrevi.
Absolutamente nada mudou desde que comecei, há seis meses, a fazer essa série de reportagens. Os ônibus que entrei continuam desumanos, as vans nas quais viajei transbordam seres humanos, os trens que me levaram de Caucaia para Fortaleza derretem de ferrugem. Os mototaxistas que conversei insistem em piratear e zanzam pela cidade com suas irregularidades. E os táxis também. Uma facção que quer virar lotação.
Se tivesse de escolher entre todos que conheci para usar diariamente estaria numa sinuca de bico. Todos foram desenhados para que as pessoas se tornem inimigas, que garimpem o ódio entre si, que cheguem mal-humoradas, que retornem para casa bufando por terem de entrar num ônibus, trem, van ou em determinados táxis e mototáxis. Não gostaria de cultivar sentimentos tão torpes diariamente, porém se estou na tal sinuca opto pelo trem. Afinal os trilhos ainda garantem a pontualidade e uma certa segurança, apesar das pedradas dos inconseqüentes. Fico com ele mesmo aos pedaços, porque dizem por aí que em breve ele vai ter ar condicionado.

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