O Estado de São Paulo - São Paulo-SP, 08/03/2006
Suspeita: greve é pró-patrões
Ministério Público vai investigar se, de novo, sindicato defende empresários
O Ministério Público Estadual vai investigar se a greve de ontem foi mais um caso em que o sindicato dos motoristas e cobradores de ônibus organizou paralisações para defender interesses de empresários do setor. A suspeita foi levantada ontem pela promotora Maria da Glória Borin Gavião de Almeida, diretora do Centro de Apoio da Promotoria do Consumidor, que acompanha 30 investigações sobre o assunto, abertas após manifestação em novembro passado. "Já suscitamos a semelhança desta nova paralisação com aquela. Vamos apurar", afirmou a promotora. "Como já existem investigações nesse sentido, os fatos serão apurados nos procedimentos existentes."
Há quatro meses, 400 ônibus foram retirados das ruas em protesto contra ameaça de não pagamento do 13º salário, o que fez o MPE abrir procedimento para apurar possível conluio entre sindicalistas e empresários de ônibus. O procedimento foi dividido e hoje há uma investigação para cada empresa. Até agora, não houve acordo, nem proposta de ação em nenhum dos 30 casos.
Por várias vezes na gestão passada, motoristas e cobradores cruzaram os braços após a Prefeitura tomar medidas que contrariaram interesses dos empresários. O sindicato trabalhista sempre negou conluio com empresários - locaute -, mas investigação dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, em 2003, na gestão Marta Suplicy, constatou que sindicalistas recebiam até R$ 1,5 milhão para organizar greves. Mas é provável que a prática seja anterior à gestão petista.
Ao todo, 17 dirigentes do sindicato foram presos e hoje respondem ao processo em liberdade. Oficialmente, eles estão afastados do sindicato, mas muitos exercem grande influência nos bastidores. O atual presidente, Isao Hosogi, é um dos melhores amigos de Edivaldo Santiago, que presidia a entidade quando surgiram os escândalos e é acusado de liderar o locaute.
Em março de 2002, o sindicato organizou uma greve dias antes de vencer o prazo da Prefeitura para que empresários renovassem parte da frota com mais de dez anos. O não-cumprimento acarretaria multa às empresas. O sindicato alegou que o protesto era contra possíveis demissões, já que, para investir na compra de veículo, as empresas cortariam pessoal.
A tarifa de ônibus tinha sido reajustada havia menos de um ano e o então secretário de Transportes, Carlos Zarattini, acusou os sindicalistas de locaute. Em fevereiro de 2003, nova greve foi organizada um dia depois de o Ministério Público do Trabalho pedir à Justiça o bloqueio de bens de empresários de ônibus inadimplentes com o INSS. Foram dois dias de paralisação com 3,1 milhões de pessoas prejudicadas. O sindicato alegava que pagamentos estavam atrasados. Mas, nos bastidores, a maior preocupação dos empresários era reduzir as exigências de investimento previstas na licitação.
Nos três primeiros anos da gestão Marta - no último não houve greve - , foram nove grandes paralisações. Os empresários saíram ganhando muitas vezes. Foi assim que conseguiram dois reajustes de tarifa em um ano e meio de governo - de R$ 1,15 para R$ 1,70 - e o fim da cobrança pela Prefeitura de uma taxa de administração, que custava aos empresários R$ 2 milhões por ano.
A falta de entendimento entre governo e empresários também levou à demissão de Zarattini, no fim de 2002.
Prefeitura e empresários chegam, enfim, a um acordo
As negociações sobre valores e ajustes contratuais serão feitas nos próximos dois dias, anuncia SPTrans
Representantes de seis consórcios de ônibus participaram ontem à noite de uma reunião com o secretário municipal de Transportes, Frederico Bussinger, para reivindicar reajustes contratuais nos serviços de transporte coletivo. Ao final do encontro, às 23h50, o presidente da São Paulo Transportes (SPTrans), Ulrich Hoffmann, disse que a Prefeitura e as empresas entraram em acordo. As negociações sobre valores e ajustes contratuais serão feitas nos próximos dois dias.
Antes da reunião, o advogado do sindicato que representa os donos de empresas de ônibus, o SPUrbanus, Carlos Alberto Fernandes Rodrigues de Souza, havia dito que os consórcios estão trabalhando no vermelho, com prejuízos mensais que ultrapassam R$ 46 milhões. Os custos da operação do sistema de transporte, segundo o sindicato, é de R$ 200 milhões mensais, mas a Prefeitura repassa R$ 156 milhões mensais.
Durante a reunião, a expectativa dos empresários era que houvesse um reequilíbrio financeiro no contrato, mas em uma reunião anterior, com vereadores da Comissão de Transportes da Câmara, Bussinger afirmou que a Prefeitura não iria ceder. A secretaria oferecia um reajuste de 9,45% no valor da remuneração por passageiro transportado nos ônibus, o que era considerado insuficiente pelas transportadoras.
O sindicato reivindicava um reajuste de 12,66%, que, segundo os empresários, estava previsto no contrato. Caso o reequilíbrio não fosse acordado entre Prefeitura e SPUrbanus, a decisão poderia parar na Justiça. Mas o sindicato garantia que o serviço de transporte coletivo não iria parar, por conta da obrigação legal de prestar o serviço. O advogado da SPUrbanus afirmava que haveria dificuldades para pagar os salários dos funcionários dessas empresas caso não houvesse o equilíbrio.
Greve de ônibus afeta 727 mil em SP
Número é da SPTrans, mas sindicato fala em 1 milhão; paralisação fica suspensa após promessa de pagamento até amanhã
Terminais e pontos de ônibus lotados. Surpresos, paulistanos descobriram ontem que 70% das garagens de empresas de ônibus ficariam fechadas até as 6 horas, numa paralisação organizada pelo Sindicato dos Motoristas. O motivo alegado foi o não-pagamento do salário de fevereiro, mas a greve reforçou a posição das empresas: seis dos oito consórcios da cidade encostaram a Prefeitura na parede, ameaçando romper o contrato. A promessa das viações de pagar até amanhã os salários fez o sindicato recuar da ameaça de manter a paralisação. Empresários e Prefeitura acenaram à noite com um acordo para o impasse. Antes, a administração obteve liminar exigindo a circulação de toda a frota, sob pena de multa diária de R$ 10 mil.
Conforme o sindicato, pouco mais de 1 milhão de pessoas foram afetadas ontem, nas zonas norte, sul e leste - a São Paulo Transportes (SPTrans) estima que tenham sido 727 mil. Segundo o presidente do sindicato, Isao Hosogi, 4.384 ônibus não circularam na madrugada - 52% da frota. A situação só se normalizou às 9 horas.
À tarde, Hosogi tinha dito que paralisaria hoje até 17 garagens, onde trabalham 23 mil pessoas que não receberam o salário de fevereiro, na sexta-feira. "Se as empresas não estipularem uma data para pagamento do salário, já pensamos em fazer paralisação geral a partir da meia-noite", ameaçou Hosogi, referindo-se à possibilidade de greve por tempo indeterminado nas 17 garagens.
A ofensiva das empresas começou anteontem, quando elas protocolaram documento pedindo rescisão amigável do contrato com a Prefeitura. Elas alegam que a administração acumula dívidas de R$ 50 milhões com o setor e tem deixado de cumprir cláusulas contratuais. O secretário dos Transportes, Frederico Bussinger, disse que não cederia ao que classificou de "chantagem".
Às 4h15, quando os primeiros veículos costumam deixar as garagens rumo ao centro, os pontos de ônibus da Estrada do M'Boi Mirim, zona sul, estavam lotados. "Fiquei sabendo da greve agora, ao ligar o rádio", queixou-se a empregada doméstica Maria Helena dos Reis, de 45 anos. A SPTrans manteve o Terminal Jardim Ângela fechado até as 5h30. Centenas de passageiros tentavam embarcar nos ônibus e microônibus operados pelas cooperativas do sistema local, que não aderiram à paralisação. Muitos lotações circularam com as portas abertas, colocando em risco os passageiros. No Terminal Santo Amaro, a polícia foi chamada para organizar filas. Quando os ônibus voltaram a circular, às 6 horas, passageiros tiveram de brigar por uma vaga.
"Não é justo. Vou perder o dia de serviço", disse o vidraceiro Marcos José Bezerra. Ele deveria ter chegado a Higienópolis às 7 horas, mas naquele horário ainda estava no Terminal A.E. Carvalho, zona leste.
Para evitar novas paralisações, a Prefeitura pediu e obteve uma liminar, assinada pela juíza Celina Kiyomi Toyoshima, da 3ª Vara da Fazenda Pública, impedindo a interrupção do serviço. "É inegável que o transporte urbano rodoviário de passageiros constitui, indiscutivelmente, serviço essencial. Deve, pois, ser prestado de forma regular e contínua", afirmou a juíza na decisão.
REUNIÃO
Também poderia parar na Justiça a negociação entre os concessionários do transporte coletivo e a Prefeitura. O diálogo entre as partes era difícil. Mas a reunião ontem entre empresários e o secretário Bussinger terminou com a promessa de solução para os problemas em 48 horas. As empresas alegam que o sistema é deficitário em pelo menos R$ 46 milhões. Por isso, pediam um reajuste de 12,66% no valor de remuneração por passageiro. A Prefeitura oferecia 9,45%.
Dois consórcios e quatro viações não pararam
Motivos distintos levaram dois dos oito consórcios que operam o sistema de ônibus da cidade a não participarem da mobilização dos empresários do setor para pressionar a Prefeitura. A Viação Himalaia Transportes, que forma sozinha o Consórcio Himalaia, da zona leste, está trabalhando graças a um contrato emergencial. Já as empresas do Consórcio Sudoeste, responsáveis por linhas nas zonas oeste e sul, tinham dinheiro para pagar o salário dos funcionários em dia e optaram por aguardar o desenrolar das negociações.
Segundo o sindicato dos empresários (SPUrbanus), trabalhadores de 11 empresas participaram da paralisação. Além das garagens dos dois consórcios, não houve paralisação nas das Viações Tupi, Paratodos, Gatusa e Transcuba. Elas fazem parte dos seis consórcios "rebeldes", mas não costumam participar de greves.
A Himalaia tem linhas em Aricanduva, Itaquera, Cidade Tiradentes e São Mateus. O Sudoeste, do qual fazem parte a Gato Preto, Transpass e Oak Tree, opera no Butantã e no Campo Limpo. Fontes ouvidas pelo Estado informaram que as empresas do Sudoeste acumulam prejuízos há meses porque têm de bancar déficits operacionais.
Folha de S. Paulo - São Paulo-SP, 08/03/2006
Greve dos ônibus acaba, mas crise não
Paralisação de três horas pela manhã prejudicou mais de 700 mil; prefeitura e empresários ainda não chegam a acordo
Motoristas de ônibus de São Paulo fizeram uma paralisação em mais de metade das garagens na madrugada de ontem, ameaçaram radicalizar com greve total, mas voltaram atrás depois que as viações prometeram pagar os salários atrasados até amanhã.
Os serviços devem ser mantidos hoje sem interrupção, embora a situação do transporte seguisse sob impasse. Até a meia-noite, empresários continuavam reunidos com integrantes da prefeitura para discutir reajustes ao setor.
A mobilização dos condutores prejudicou 727 mil passageiros até as 6h -de um total superior a 5 milhões por dia. Por conta da determinação do sindicato dos condutores de liberar a partida dos veículos nesse horário, houve superlotação. Os serviços voltaram ao normal só após as 8h.
A paralisação teve impacto no comércio -lojas abriram mais tarde em vários pontos.
Segundo a Secretaria dos Transportes, das 29 garagens do sistema, 16 atrasaram a saída dos ônibus. Elas são ligadas a dois empresários que dominam há décadas os ônibus em São Paulo: José Ruas Vaz e Belarmino Marta.
Os trabalhadores reivindicavam os depósitos dos salários, que deveriam ter sido feitos na última sexta-feira, e ameaçavam ontem à tarde iniciar greve por tempo indeterminado a partir de hoje.
Mas Isao Hosogi, presidente do sindicato da categoria, disse que recebeu a promessa das empresas de pagar os salários até amanhã -colocando fim ao movimento.
A oferta dos patrões ocorreu às 19h30, quando eles já estavam reunidos com a gestão José Serra (PSDB), que obteve liminar na Justiça contra uma nova greve.
A mobilização dos condutores se deu em meio à pressão das viações por reajuste da remuneração e pagamento de dívidas antigas, incluindo R$ 17 milhões de 2004.
Anteontem, numa ação inédita, seis dos oito consórcios protocolaram um pedido para a rescisão dos contratos firmados em 2003, que foi negada pela prefeitura.
As viações alegavam não ter mais condições financeiras. A decisão colocou Serra em situação delicada às vésperas da definição sobre a sua candidatura à Presidência. Ontem ele cancelou viagem a Goiás devido ao impasse.
A ação articulada -reivindicação das viações seguida por greve- reabriu as acusações sobre a existência de locaute. Muitos motoristas nem sabiam que deveriam parar ontem. "Isso não tem nada a ver com a gente. É problema político", afirmou Oswaldo Ferreira Borges, que trabalha em uma viação do Consórcio Plus.
Mesmo após final da paralisação, usuários tiveram de enfrentar ônibus lotados e atrasos; comércio reclama prejuízos
Passageiro espera duas horas no ponto
Uma espera por ônibus seis vezes maior do que a usual foi o que a paralisação durante a madrugada de ontem causou ao programador Wagner Luiz da Costa.
Acostumado a aguardar no terminal João Dias (zona sul) por até 20 minutos, Costa levou mais de duas horas para conseguir pegar um ônibus até o terminal Parque Dom Pedro, onde chegou depois das 10h. O resultado da demora foi o atraso fora do normal para chegar ao trabalho, no bairro Anália Franco (zona leste), onde deveria estar às 9h.
O caso do programador, no entanto, não faz parte dos números da SPTrans (empresa municipal responsável pelos transportes), já que o órgão não contabiliza o total de pessoas que foram atingidas pelo atrasos que ocorreram mesmo após o fim da paralisação. Segundo a entidade, 727 mil passageiros deixaram de pegar ônibus até as 6h.
A auxiliar de limpeza Giovana da Silva, 32, também sofreu com os problemas nos transportes mesmo após o movimento ter sido encerrado. Ela disse ter esperado 40 minutos por um ônibus no terminal São Mateus que a levaria ao centro. O intervalo normal, diz, é de dez minutos.
Jaqueline Rezende, 22, foi outra prejudicada. Ela chegou ao trabalho, em uma loja na rua 25 de Março, apenas às 9h30 -seu horário de entrada é às 7h30. "Só consegui pegar o terceiro ônibus que passou no ponto depois que eles voltaram a funcionar. Todos vinham cheios, com gente presa na porta", conta.
Menos consumidores
Proprietário de duas lojas na região da 25 de Março, Ivo Peixoto, 55, reclamou que, além do atraso dos funcionários, a falta de ônibus afetou o movimento de consumidores. "Quem viria para comprar nem saiu de casa. O movimento caiu cerca de 40%."
Agda Salles, supervisora de outra loja na região, aponta que até os ambulantes tiveram dificuldades para chegar. "A rua ficou vazia. Isso aqui estava o paraíso", brinca, já que não teve as vendas prejudicadas, pois seus clientes fazem compras por telefone.
Na região comercial da rua Teodoro Sampaio (em Pinheiros, zona oeste), o movimento de compradores também diminuiu. "Dá pra ver pela quantidade de pedestres. A rua está mais calma do que o normal", disse Pedro Cerqueira da Silva, 23, assistente de vendas de uma loja de roupas.
Com o pé enfaixado, sem poder andar direito, a digitadora desempregada Valdelice Nascimento, 45, teve que caminhar do terminal Parque Dom Pedro -onde chegou às 5h10 e não havia ônibus- até o bairro da Liberdade para garantir lugar na fila do Centro de Solidariedade ao Trabalhador. "Fiquei mais de uma hora andando", afirmou.
Comissão quer reunir secretário e empresários
Vereadores da Comissão de Transportes e Trânsito da Câmara querem uma acareação amanhã entre Frederico Bussinger, secretário dos Transportes, e os empresários de ônibus para ouvir os dois lados.
"Mesmo que haja um acerto nesta semana, a questão dos contratos é uma bomba que está para explodir", diz Adilson Amadeu (PTB), presidente da comissão. Ele diz que Bussinger já aceitou.
Amadeu faz parte de um grupo de vereadores para quem os contratos deveriam ser rompidos para que começassem outros, com regras diferentes -idéia defendida pelas viações.
Alguns querem investigação da Promotoria sobre a falta de ação da prefeitura.
Suspeita: greve é pró-patrões
Ministério Público vai investigar se, de novo, sindicato defende empresários
O Ministério Público Estadual vai investigar se a greve de ontem foi mais um caso em que o sindicato dos motoristas e cobradores de ônibus organizou paralisações para defender interesses de empresários do setor. A suspeita foi levantada ontem pela promotora Maria da Glória Borin Gavião de Almeida, diretora do Centro de Apoio da Promotoria do Consumidor, que acompanha 30 investigações sobre o assunto, abertas após manifestação em novembro passado. "Já suscitamos a semelhança desta nova paralisação com aquela. Vamos apurar", afirmou a promotora. "Como já existem investigações nesse sentido, os fatos serão apurados nos procedimentos existentes."
Há quatro meses, 400 ônibus foram retirados das ruas em protesto contra ameaça de não pagamento do 13º salário, o que fez o MPE abrir procedimento para apurar possível conluio entre sindicalistas e empresários de ônibus. O procedimento foi dividido e hoje há uma investigação para cada empresa. Até agora, não houve acordo, nem proposta de ação em nenhum dos 30 casos.
Por várias vezes na gestão passada, motoristas e cobradores cruzaram os braços após a Prefeitura tomar medidas que contrariaram interesses dos empresários. O sindicato trabalhista sempre negou conluio com empresários - locaute -, mas investigação dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, em 2003, na gestão Marta Suplicy, constatou que sindicalistas recebiam até R$ 1,5 milhão para organizar greves. Mas é provável que a prática seja anterior à gestão petista.
Ao todo, 17 dirigentes do sindicato foram presos e hoje respondem ao processo em liberdade. Oficialmente, eles estão afastados do sindicato, mas muitos exercem grande influência nos bastidores. O atual presidente, Isao Hosogi, é um dos melhores amigos de Edivaldo Santiago, que presidia a entidade quando surgiram os escândalos e é acusado de liderar o locaute.
Em março de 2002, o sindicato organizou uma greve dias antes de vencer o prazo da Prefeitura para que empresários renovassem parte da frota com mais de dez anos. O não-cumprimento acarretaria multa às empresas. O sindicato alegou que o protesto era contra possíveis demissões, já que, para investir na compra de veículo, as empresas cortariam pessoal.
A tarifa de ônibus tinha sido reajustada havia menos de um ano e o então secretário de Transportes, Carlos Zarattini, acusou os sindicalistas de locaute. Em fevereiro de 2003, nova greve foi organizada um dia depois de o Ministério Público do Trabalho pedir à Justiça o bloqueio de bens de empresários de ônibus inadimplentes com o INSS. Foram dois dias de paralisação com 3,1 milhões de pessoas prejudicadas. O sindicato alegava que pagamentos estavam atrasados. Mas, nos bastidores, a maior preocupação dos empresários era reduzir as exigências de investimento previstas na licitação.
Nos três primeiros anos da gestão Marta - no último não houve greve - , foram nove grandes paralisações. Os empresários saíram ganhando muitas vezes. Foi assim que conseguiram dois reajustes de tarifa em um ano e meio de governo - de R$ 1,15 para R$ 1,70 - e o fim da cobrança pela Prefeitura de uma taxa de administração, que custava aos empresários R$ 2 milhões por ano.
A falta de entendimento entre governo e empresários também levou à demissão de Zarattini, no fim de 2002.
Prefeitura e empresários chegam, enfim, a um acordo
As negociações sobre valores e ajustes contratuais serão feitas nos próximos dois dias, anuncia SPTrans
Representantes de seis consórcios de ônibus participaram ontem à noite de uma reunião com o secretário municipal de Transportes, Frederico Bussinger, para reivindicar reajustes contratuais nos serviços de transporte coletivo. Ao final do encontro, às 23h50, o presidente da São Paulo Transportes (SPTrans), Ulrich Hoffmann, disse que a Prefeitura e as empresas entraram em acordo. As negociações sobre valores e ajustes contratuais serão feitas nos próximos dois dias.
Antes da reunião, o advogado do sindicato que representa os donos de empresas de ônibus, o SPUrbanus, Carlos Alberto Fernandes Rodrigues de Souza, havia dito que os consórcios estão trabalhando no vermelho, com prejuízos mensais que ultrapassam R$ 46 milhões. Os custos da operação do sistema de transporte, segundo o sindicato, é de R$ 200 milhões mensais, mas a Prefeitura repassa R$ 156 milhões mensais.
Durante a reunião, a expectativa dos empresários era que houvesse um reequilíbrio financeiro no contrato, mas em uma reunião anterior, com vereadores da Comissão de Transportes da Câmara, Bussinger afirmou que a Prefeitura não iria ceder. A secretaria oferecia um reajuste de 9,45% no valor da remuneração por passageiro transportado nos ônibus, o que era considerado insuficiente pelas transportadoras.
O sindicato reivindicava um reajuste de 12,66%, que, segundo os empresários, estava previsto no contrato. Caso o reequilíbrio não fosse acordado entre Prefeitura e SPUrbanus, a decisão poderia parar na Justiça. Mas o sindicato garantia que o serviço de transporte coletivo não iria parar, por conta da obrigação legal de prestar o serviço. O advogado da SPUrbanus afirmava que haveria dificuldades para pagar os salários dos funcionários dessas empresas caso não houvesse o equilíbrio.
Greve de ônibus afeta 727 mil em SP
Número é da SPTrans, mas sindicato fala em 1 milhão; paralisação fica suspensa após promessa de pagamento até amanhã
Terminais e pontos de ônibus lotados. Surpresos, paulistanos descobriram ontem que 70% das garagens de empresas de ônibus ficariam fechadas até as 6 horas, numa paralisação organizada pelo Sindicato dos Motoristas. O motivo alegado foi o não-pagamento do salário de fevereiro, mas a greve reforçou a posição das empresas: seis dos oito consórcios da cidade encostaram a Prefeitura na parede, ameaçando romper o contrato. A promessa das viações de pagar até amanhã os salários fez o sindicato recuar da ameaça de manter a paralisação. Empresários e Prefeitura acenaram à noite com um acordo para o impasse. Antes, a administração obteve liminar exigindo a circulação de toda a frota, sob pena de multa diária de R$ 10 mil.
Conforme o sindicato, pouco mais de 1 milhão de pessoas foram afetadas ontem, nas zonas norte, sul e leste - a São Paulo Transportes (SPTrans) estima que tenham sido 727 mil. Segundo o presidente do sindicato, Isao Hosogi, 4.384 ônibus não circularam na madrugada - 52% da frota. A situação só se normalizou às 9 horas.
À tarde, Hosogi tinha dito que paralisaria hoje até 17 garagens, onde trabalham 23 mil pessoas que não receberam o salário de fevereiro, na sexta-feira. "Se as empresas não estipularem uma data para pagamento do salário, já pensamos em fazer paralisação geral a partir da meia-noite", ameaçou Hosogi, referindo-se à possibilidade de greve por tempo indeterminado nas 17 garagens.
A ofensiva das empresas começou anteontem, quando elas protocolaram documento pedindo rescisão amigável do contrato com a Prefeitura. Elas alegam que a administração acumula dívidas de R$ 50 milhões com o setor e tem deixado de cumprir cláusulas contratuais. O secretário dos Transportes, Frederico Bussinger, disse que não cederia ao que classificou de "chantagem".
Às 4h15, quando os primeiros veículos costumam deixar as garagens rumo ao centro, os pontos de ônibus da Estrada do M'Boi Mirim, zona sul, estavam lotados. "Fiquei sabendo da greve agora, ao ligar o rádio", queixou-se a empregada doméstica Maria Helena dos Reis, de 45 anos. A SPTrans manteve o Terminal Jardim Ângela fechado até as 5h30. Centenas de passageiros tentavam embarcar nos ônibus e microônibus operados pelas cooperativas do sistema local, que não aderiram à paralisação. Muitos lotações circularam com as portas abertas, colocando em risco os passageiros. No Terminal Santo Amaro, a polícia foi chamada para organizar filas. Quando os ônibus voltaram a circular, às 6 horas, passageiros tiveram de brigar por uma vaga.
"Não é justo. Vou perder o dia de serviço", disse o vidraceiro Marcos José Bezerra. Ele deveria ter chegado a Higienópolis às 7 horas, mas naquele horário ainda estava no Terminal A.E. Carvalho, zona leste.
Para evitar novas paralisações, a Prefeitura pediu e obteve uma liminar, assinada pela juíza Celina Kiyomi Toyoshima, da 3ª Vara da Fazenda Pública, impedindo a interrupção do serviço. "É inegável que o transporte urbano rodoviário de passageiros constitui, indiscutivelmente, serviço essencial. Deve, pois, ser prestado de forma regular e contínua", afirmou a juíza na decisão.
REUNIÃO
Também poderia parar na Justiça a negociação entre os concessionários do transporte coletivo e a Prefeitura. O diálogo entre as partes era difícil. Mas a reunião ontem entre empresários e o secretário Bussinger terminou com a promessa de solução para os problemas em 48 horas. As empresas alegam que o sistema é deficitário em pelo menos R$ 46 milhões. Por isso, pediam um reajuste de 12,66% no valor de remuneração por passageiro. A Prefeitura oferecia 9,45%.
Dois consórcios e quatro viações não pararam
Motivos distintos levaram dois dos oito consórcios que operam o sistema de ônibus da cidade a não participarem da mobilização dos empresários do setor para pressionar a Prefeitura. A Viação Himalaia Transportes, que forma sozinha o Consórcio Himalaia, da zona leste, está trabalhando graças a um contrato emergencial. Já as empresas do Consórcio Sudoeste, responsáveis por linhas nas zonas oeste e sul, tinham dinheiro para pagar o salário dos funcionários em dia e optaram por aguardar o desenrolar das negociações.
Segundo o sindicato dos empresários (SPUrbanus), trabalhadores de 11 empresas participaram da paralisação. Além das garagens dos dois consórcios, não houve paralisação nas das Viações Tupi, Paratodos, Gatusa e Transcuba. Elas fazem parte dos seis consórcios "rebeldes", mas não costumam participar de greves.
A Himalaia tem linhas em Aricanduva, Itaquera, Cidade Tiradentes e São Mateus. O Sudoeste, do qual fazem parte a Gato Preto, Transpass e Oak Tree, opera no Butantã e no Campo Limpo. Fontes ouvidas pelo Estado informaram que as empresas do Sudoeste acumulam prejuízos há meses porque têm de bancar déficits operacionais.
Folha de S. Paulo - São Paulo-SP, 08/03/2006
Greve dos ônibus acaba, mas crise não
Paralisação de três horas pela manhã prejudicou mais de 700 mil; prefeitura e empresários ainda não chegam a acordo
Motoristas de ônibus de São Paulo fizeram uma paralisação em mais de metade das garagens na madrugada de ontem, ameaçaram radicalizar com greve total, mas voltaram atrás depois que as viações prometeram pagar os salários atrasados até amanhã.
Os serviços devem ser mantidos hoje sem interrupção, embora a situação do transporte seguisse sob impasse. Até a meia-noite, empresários continuavam reunidos com integrantes da prefeitura para discutir reajustes ao setor.
A mobilização dos condutores prejudicou 727 mil passageiros até as 6h -de um total superior a 5 milhões por dia. Por conta da determinação do sindicato dos condutores de liberar a partida dos veículos nesse horário, houve superlotação. Os serviços voltaram ao normal só após as 8h.
A paralisação teve impacto no comércio -lojas abriram mais tarde em vários pontos.
Segundo a Secretaria dos Transportes, das 29 garagens do sistema, 16 atrasaram a saída dos ônibus. Elas são ligadas a dois empresários que dominam há décadas os ônibus em São Paulo: José Ruas Vaz e Belarmino Marta.
Os trabalhadores reivindicavam os depósitos dos salários, que deveriam ter sido feitos na última sexta-feira, e ameaçavam ontem à tarde iniciar greve por tempo indeterminado a partir de hoje.
Mas Isao Hosogi, presidente do sindicato da categoria, disse que recebeu a promessa das empresas de pagar os salários até amanhã -colocando fim ao movimento.
A oferta dos patrões ocorreu às 19h30, quando eles já estavam reunidos com a gestão José Serra (PSDB), que obteve liminar na Justiça contra uma nova greve.
A mobilização dos condutores se deu em meio à pressão das viações por reajuste da remuneração e pagamento de dívidas antigas, incluindo R$ 17 milhões de 2004.
Anteontem, numa ação inédita, seis dos oito consórcios protocolaram um pedido para a rescisão dos contratos firmados em 2003, que foi negada pela prefeitura.
As viações alegavam não ter mais condições financeiras. A decisão colocou Serra em situação delicada às vésperas da definição sobre a sua candidatura à Presidência. Ontem ele cancelou viagem a Goiás devido ao impasse.
A ação articulada -reivindicação das viações seguida por greve- reabriu as acusações sobre a existência de locaute. Muitos motoristas nem sabiam que deveriam parar ontem. "Isso não tem nada a ver com a gente. É problema político", afirmou Oswaldo Ferreira Borges, que trabalha em uma viação do Consórcio Plus.
Mesmo após final da paralisação, usuários tiveram de enfrentar ônibus lotados e atrasos; comércio reclama prejuízos
Passageiro espera duas horas no ponto
Uma espera por ônibus seis vezes maior do que a usual foi o que a paralisação durante a madrugada de ontem causou ao programador Wagner Luiz da Costa.
Acostumado a aguardar no terminal João Dias (zona sul) por até 20 minutos, Costa levou mais de duas horas para conseguir pegar um ônibus até o terminal Parque Dom Pedro, onde chegou depois das 10h. O resultado da demora foi o atraso fora do normal para chegar ao trabalho, no bairro Anália Franco (zona leste), onde deveria estar às 9h.
O caso do programador, no entanto, não faz parte dos números da SPTrans (empresa municipal responsável pelos transportes), já que o órgão não contabiliza o total de pessoas que foram atingidas pelo atrasos que ocorreram mesmo após o fim da paralisação. Segundo a entidade, 727 mil passageiros deixaram de pegar ônibus até as 6h.
A auxiliar de limpeza Giovana da Silva, 32, também sofreu com os problemas nos transportes mesmo após o movimento ter sido encerrado. Ela disse ter esperado 40 minutos por um ônibus no terminal São Mateus que a levaria ao centro. O intervalo normal, diz, é de dez minutos.
Jaqueline Rezende, 22, foi outra prejudicada. Ela chegou ao trabalho, em uma loja na rua 25 de Março, apenas às 9h30 -seu horário de entrada é às 7h30. "Só consegui pegar o terceiro ônibus que passou no ponto depois que eles voltaram a funcionar. Todos vinham cheios, com gente presa na porta", conta.
Menos consumidores
Proprietário de duas lojas na região da 25 de Março, Ivo Peixoto, 55, reclamou que, além do atraso dos funcionários, a falta de ônibus afetou o movimento de consumidores. "Quem viria para comprar nem saiu de casa. O movimento caiu cerca de 40%."
Agda Salles, supervisora de outra loja na região, aponta que até os ambulantes tiveram dificuldades para chegar. "A rua ficou vazia. Isso aqui estava o paraíso", brinca, já que não teve as vendas prejudicadas, pois seus clientes fazem compras por telefone.
Na região comercial da rua Teodoro Sampaio (em Pinheiros, zona oeste), o movimento de compradores também diminuiu. "Dá pra ver pela quantidade de pedestres. A rua está mais calma do que o normal", disse Pedro Cerqueira da Silva, 23, assistente de vendas de uma loja de roupas.
Com o pé enfaixado, sem poder andar direito, a digitadora desempregada Valdelice Nascimento, 45, teve que caminhar do terminal Parque Dom Pedro -onde chegou às 5h10 e não havia ônibus- até o bairro da Liberdade para garantir lugar na fila do Centro de Solidariedade ao Trabalhador. "Fiquei mais de uma hora andando", afirmou.
Comissão quer reunir secretário e empresários
Vereadores da Comissão de Transportes e Trânsito da Câmara querem uma acareação amanhã entre Frederico Bussinger, secretário dos Transportes, e os empresários de ônibus para ouvir os dois lados.
"Mesmo que haja um acerto nesta semana, a questão dos contratos é uma bomba que está para explodir", diz Adilson Amadeu (PTB), presidente da comissão. Ele diz que Bussinger já aceitou.
Amadeu faz parte de um grupo de vereadores para quem os contratos deveriam ser rompidos para que começassem outros, com regras diferentes -idéia defendida pelas viações.
Alguns querem investigação da Promotoria sobre a falta de ação da prefeitura.

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