A Tarde - Salvador-BA, 17/09/2005
Estudantes nas ruas
Bastou a Justiça conceder a liminar que garante o aumento da tarifa para eles mudarem a rotina da cidade com diversas manifestaçoes
Os estudantes foram rápidos em mostrar as armas que tem para impedir o aumento de 46% das passagens de ônibus de R$ 1,50 para R$ 2,20. Foram para as principais ruas do centro em protesto, com a quantidade de jovens que conseguiram reunir depois de um arrastao que começou pelo Colégio Severino Vieira, Nazaré, às 9 horas, passando pelos vizinhos Teixeira de Freitas e Central e chegando aos colégios Senhor do Bonfim (Barris), Manoel Novais (Canela), Odorico Tavares (Corredor da Vitória) e Merces e Sao Bento (Avenida Sete).
Do ponto de concentraçao, Campo Grande, seguiram em direçao à Praça Municipal. De acordo com a Polícia Militar, 2.500 estudantes foram às ruas pela manha. A trégua foi rápida e, logo no começo da tarde, eles voltaram ao centro, marcharam da Piedade à Praça Municipal. No final da tarde, mais estudantes nas ruas, dessa vez no bairro do Costa Azul e Sao Cristóvao. Os que estavam concentrados em frente à Câmara Municipal seguiram em passeata pela Baixa dos Sapateiros em direçao à Estaçao da Lapa, via Dique do Tororó.
Líderes da UNE (Uniao Nacional dos Estudantes), UEB (Uniao dos Estudantes do Estado da Bahia), Ubes (Uniao Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e a Abes (Associaçao Baiana de Estudantes Secundaristas) estavam lá na conduçao do protesto. No Forte de Sao Pedro, um incidente envolvendo um grupo de estudantes e uma viatura do 18º Batalhao da Polícia Militar (Centro Histórico) terminou na prisao de um estudante, de nome Jucymar, que foi liberado logo depois.
Aos gritos de "se aumentar para R$ 2,20, o bicho vai pegar", os estudantes atraíram a atençao dos comerciantes e pessoas que estavam pelo centro da cidade ontem de manha. Houve manifestaçoes de apoio de várias partes. "Nao dá para pagar R$ 2,20 por um serviço que é ruim e numa cidade onde o desemprego tem a maior taxa do Brasil", disse Lúcia Maria Gonçalves, 27 anos, funcionária de uma loja de confecçoes na Avenida Sete.
"Dessa vez, nao vamos permitir qualquer reajuste na tarifa e vamos barrar nas ruas qualquer tentativa nesse sentido", desafiou o presidente da Uniao Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Marcelo Gaviao, à frente das manifestaçoes. O presidente nacional da UNE, Gustavo Petta, que chegou de Sao Paulo na quinta-feira, disse que a reaçao dos estudantes em Salvador foi rápida.
Segundo Gaviao, a saída é a criaçao de um conselho popular para dialogar com os empresários e a prefeitura e se chegar a um acordo. Os manifestantes condenaram a postura dos empresários que buscaram aplicar o reajuste através de uma liminar da Justiça.
O secretário municipal de Infra-Estrutura e Transportes Urbanos de Salvador, Nestor Duarte, disse que qualquer que venha a ser a decisao sobre o reajuste das tarifas de ônibus terá que ser fruto de uma ampla negociaçao envolvendo a prefeitura, as empresas e os setores representativos da sociedade: "Nao há serviço de transporte que se sustente com uma tarifa congelada há dois anos e com 11 reajustes no preço do óleo diesel. Mas nao há como manter um reajuste de R$ 2,20, como querem as empresas, se a populaçao nao pode pagar", disse.
Ontem pela manha, em audiencia na Câmara dos Vereadores, onde foi discutir o futuro do metrô e do sistema de trens suburbanos, Nestor Duarte explicou que a idéia é buscar uma soluçao intermediária entre o que as empresas querem (R$ 2,20) e o que a populaçao exige (a manutençao dos R$ 1,50). "Vamos debater o assunto e encontrar uma tarifa justa, que atenda aos pleitos dos empresários e às necessidades da populaçao", explicou.
Esta é a segunda vez que os empresários de ônibus de Salvador tentam ganhar na Justiça o direito de reajustar o valor da tarifa do transporte urbano. No final do ano passado, depois de uma açao na Justiça, os empresários resolveram aumentar o valor da tarifa de R$ 1,50 para R$ 1,70. Mas a reaçao da prefeitura com a ameaça de cassaçao das concessoes pelo entao prefeito Antonio Imbassahy fez o Setps recuar.
Revolta do buzu
O centro da cidade parou por quase tres horas, ontem pela manha, com a manifestaçao dos estudantes contra o anúncio de reajuste das tarifas garantido por uma liminar e com açao ainda na Justiça. Foi uma manifestaçao em menor escala que as registradas em agosto de 2003, que ficou conhecida como a "Revolta do buzu" e paralisou a cidade em diversos pontos por vários dias.
O movimento teve início no dia 14 de agosto de 2003, com a primeira paralisaçao de ônibus na Lapa, e foi retomada, com força, por volta do dia 22 do mesmo mes, tendo atingido seu auge nos primeiros dias de setembro, quando se espalhou por vários pontos da cidade. Os pontos principais do movimento eram a regiao do Iguatemi (gargalo de trânsito em Salvador) e a Estaçao da Lapa. Houve confronto com PMs, gente voltando a pé para casa, ônibus quebrado, estudantes presos e até feridos em confronto com polícia. Para os estudantes, foi um marco histórico.
Os estudantes queriam a reduçao no valor da tarifa, de R$ 1,50 para R$ 1,30. A passagem nao baixou, mas eles saíram vitoriosos nao apenas por causa da grande mobilizaçao, mas também porque conseguiram o uso do smart card durante 365 dias no ano.
Na época, foram reativados e criados, respectivamente, o Conselho de Transporte e a Comissao de Desoneraçao do Transporte Público. O primeiro, em linhas gerais, seria o órgao encarregado de fiscalizar toda a política de transportes da cidade. Já a Comissao de Desoneraçao, encarregada de estudar e repensar o valor/percentual dos tributos que incidem sobre os insumos do transporte público, com a finalidade de reduzir a tarifa para o passageiro. Esse estudo seria em âmbitos municipal, estadual e federal.
Do Conselho de Transportes, integrado por representantes dos estudantes, das empresas de ônibus, da prefeitura, Câmara dos Vereadores e entidades civis, pouco se sabe de resultados práticos. O mesmo se pode dizer da Comissao de Desoneraçao, criada com a participaçao da prefeitura, empresários de ônibus e Câmara dos Vereadores, que ainda luta para acabar com os benefícios da gratuidade no sistema de transporte concedidos a diversas categorias.
Fôlego jovem ganha força durante a tarde
A sexta-feira de mobilizaçao dos estudantes em Salvador foi apenas uma prévia do que virá. Esta é a promessa dos manifestantes ao encerrarem rs 18h45 de ontem, na rotatória dos Barris, o ato público contra o reajuste da tarifa de ônibus. Os estudantes mostraram que estao dispostos a repetir a mobilizaçao de agosto de 2003 e garantem voltar rs ruas na próxima segunda.
Repetindo palavras de ordem muitas vezes cantadas em 2003, como "sou, estudante, eu sou, eu quero estudar, o Setps nao quer deixar...", os estudantes se concentraram, ontem r tarde, em frente ao Colégio Central e, depois de filarem as aulas, seguiram em direçao r Praça da Piedade. Eram 14h31 quando ocuparam a praça fazendo um apitaço. Muitos deles subiram no chafariz e empunharam a faixa "2,20 nao dá!".
Com mochilas nas costas, cara pintada ou simplesmente com a farda de colégios como Severino Vieira, Central, Salesiano, Estadual Senhor do Bonfim, Mário Augusto Teixeira, os estudantes rumaram, rs 14h54, para a Praça Municipal. O comércio parou na Avenida Sete, onde foram distribuídas bandeiras das entidades estudantis. O despachante Vanderlison Franga Nobre, 45 anos, esboçou um sorriso em solidariedade aos estudantes. "Eu acho ótimo isso aí. Pago R$ 10 todo dia para meus filhos irem para o colégio. Nao dá pra engolir esse aumento. Vai ter gente aí que vai morrer de fome", comentou.
A opiniao do despachante é partilhada pela comerciária Alzira Alves, 47 anos. Ela trabalha na Avenida Sete e mora no Engenho Velho de Brotas. Disse que, se houver o reajuste, vai ter de ir para o trabalho a pé. "Ganho o piso de R$ 400, tá apertado, tenho dois filhos. Os estudantes estao certos, tem de reivindicar".
Depois de passar pela Praça Castro Alves, os cerca de 400 estudantes, segundo estimativas da Polícia Militar, chegaram à Praça Municipal. Em frente à Câmara de Vereadores, às 15h27, um grupo tentou invadir a Câmara; somente algumas lideranças conseguiram entrar para acompanhar a negociaçao entre representantes do poder público e o Setps. A reaçao de quem estava ao microfone do carro de som foi imediata: "Fecharam a casa do povo. Terroristas!", dizia um manifestante. Assessores da prefeitura se encarregaram de distribuir um informativo atestando que o prefeito Joao Henrique era contra o aumento. Os estudantes também reagiram: "Nao adianta o prefeito Joao Henrique mandar cartinha, recado, queremos uma resposta definitiva!", comentou uma das lideranças. Mais estudantes foram chegando ao longo da tarde, de colégios como o Estadual Landulfo Alves e o Hamilton de Jesus Lopes. Concentrados na praça, eles dançaram reggae, cantaram o Hino Nacional, alguns jogaram dominó, outros tomaram cachaça com refrigerante. E às 17h40, saíram em direçao ao Dique do Tororó. Ao passar pela Avenida J.J. Seabra, bloquearam o trânsito, bateram nos ônibus e, com disposiçao, seguiram para o Dique até a rotatória da Lapa, onde pararam o trânsito por volta de 15 minutos. A PM chegou, uma policial militar mais exaltada empunhou uma espingarda calibre 12 e partiu pra cima de um grupo, sendo acalmada pelos colegas. "Ele me chamou de abestalhada", retrucou a PM.
Galera mostra a cara
Assim que souberam do aumento da tarifa, anteontem à noite, alguns estudantes começaram a convocar, por telefone, colegas e amigos para a manifestaçao. Ontem pela manha, também nao faltou quem fosse dar o recado nas salas de aula. O argumento, defendido pela presidente da Uniao Nacional dos Estudantes (UNE), Maiara Oliveira, 22, era ganhar a rua para garantir o direito de continuar em sala.
A manifestaçao começou quando estudantes da Escola de Engenharia Eletromecânica da Bahia (Nazaré) interromperam o trânsito na Piedade, foram para o Campo Grande e se juntaram a secundaristas e universitários. Rs 14 horas, eles partiram da Praça da Piedade em uma passeata até a Praça Municipal. A idéia era forçar a prefeitura a derrubar a liminar que autoriza o reajuste, obtida pelos empresários.
Com os rostos pintados de verde e amarelo, munidos de bandeiras, microfones e carros de apoio, eles organizaram a passeata com palavras de ordem como "Ole, ole, ole, olá, se aumentar para R$ 2,20, o bicho vai pegar", "Salário de peao, tarifa de ladrao", "Ih, f.... ! Estudante apareceu" e o clássico "Estudante na rua, a luta continua". A promessa, feita em frente à sede da prefeitura e à Câmara de Vereadores, é parar a cidade, a partir de segunda-feira, caso o aumento de R$ 2,20 vingue.
OS ENGAJADOS
"Nao podemos admitir que a maioria das pessoas que usa o sistema público de transporte, que mal recebe um salário, pague esse preço"
Marcelo Gaviao, 22, presidente da Uniao Baiana dos Estudantes Secundaristas (Ubes).
"O Conselho Municipal dos Transportes foi uma promessa nao cumprida da prefeitura anterior. Também é inaceitável que o smart card seja emitido pelo sindicato patronal"
Juliana Cunha, 17, presidente da Associaçao Baiana dos Estudantes Secundaristas (Abes).
"Tem gente que vai ficar sem ter como ir para a escola ou trabalhar com esse valor de tarifa. É por isso que estamos nas ruas"
Antoniel Santos, 23, diretor do gremio do Colégio Central.
Estudantes nas ruas
Bastou a Justiça conceder a liminar que garante o aumento da tarifa para eles mudarem a rotina da cidade com diversas manifestaçoes
Os estudantes foram rápidos em mostrar as armas que tem para impedir o aumento de 46% das passagens de ônibus de R$ 1,50 para R$ 2,20. Foram para as principais ruas do centro em protesto, com a quantidade de jovens que conseguiram reunir depois de um arrastao que começou pelo Colégio Severino Vieira, Nazaré, às 9 horas, passando pelos vizinhos Teixeira de Freitas e Central e chegando aos colégios Senhor do Bonfim (Barris), Manoel Novais (Canela), Odorico Tavares (Corredor da Vitória) e Merces e Sao Bento (Avenida Sete).
Do ponto de concentraçao, Campo Grande, seguiram em direçao à Praça Municipal. De acordo com a Polícia Militar, 2.500 estudantes foram às ruas pela manha. A trégua foi rápida e, logo no começo da tarde, eles voltaram ao centro, marcharam da Piedade à Praça Municipal. No final da tarde, mais estudantes nas ruas, dessa vez no bairro do Costa Azul e Sao Cristóvao. Os que estavam concentrados em frente à Câmara Municipal seguiram em passeata pela Baixa dos Sapateiros em direçao à Estaçao da Lapa, via Dique do Tororó.
Líderes da UNE (Uniao Nacional dos Estudantes), UEB (Uniao dos Estudantes do Estado da Bahia), Ubes (Uniao Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e a Abes (Associaçao Baiana de Estudantes Secundaristas) estavam lá na conduçao do protesto. No Forte de Sao Pedro, um incidente envolvendo um grupo de estudantes e uma viatura do 18º Batalhao da Polícia Militar (Centro Histórico) terminou na prisao de um estudante, de nome Jucymar, que foi liberado logo depois.
Aos gritos de "se aumentar para R$ 2,20, o bicho vai pegar", os estudantes atraíram a atençao dos comerciantes e pessoas que estavam pelo centro da cidade ontem de manha. Houve manifestaçoes de apoio de várias partes. "Nao dá para pagar R$ 2,20 por um serviço que é ruim e numa cidade onde o desemprego tem a maior taxa do Brasil", disse Lúcia Maria Gonçalves, 27 anos, funcionária de uma loja de confecçoes na Avenida Sete.
"Dessa vez, nao vamos permitir qualquer reajuste na tarifa e vamos barrar nas ruas qualquer tentativa nesse sentido", desafiou o presidente da Uniao Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Marcelo Gaviao, à frente das manifestaçoes. O presidente nacional da UNE, Gustavo Petta, que chegou de Sao Paulo na quinta-feira, disse que a reaçao dos estudantes em Salvador foi rápida.
Segundo Gaviao, a saída é a criaçao de um conselho popular para dialogar com os empresários e a prefeitura e se chegar a um acordo. Os manifestantes condenaram a postura dos empresários que buscaram aplicar o reajuste através de uma liminar da Justiça.
O secretário municipal de Infra-Estrutura e Transportes Urbanos de Salvador, Nestor Duarte, disse que qualquer que venha a ser a decisao sobre o reajuste das tarifas de ônibus terá que ser fruto de uma ampla negociaçao envolvendo a prefeitura, as empresas e os setores representativos da sociedade: "Nao há serviço de transporte que se sustente com uma tarifa congelada há dois anos e com 11 reajustes no preço do óleo diesel. Mas nao há como manter um reajuste de R$ 2,20, como querem as empresas, se a populaçao nao pode pagar", disse.
Ontem pela manha, em audiencia na Câmara dos Vereadores, onde foi discutir o futuro do metrô e do sistema de trens suburbanos, Nestor Duarte explicou que a idéia é buscar uma soluçao intermediária entre o que as empresas querem (R$ 2,20) e o que a populaçao exige (a manutençao dos R$ 1,50). "Vamos debater o assunto e encontrar uma tarifa justa, que atenda aos pleitos dos empresários e às necessidades da populaçao", explicou.
Esta é a segunda vez que os empresários de ônibus de Salvador tentam ganhar na Justiça o direito de reajustar o valor da tarifa do transporte urbano. No final do ano passado, depois de uma açao na Justiça, os empresários resolveram aumentar o valor da tarifa de R$ 1,50 para R$ 1,70. Mas a reaçao da prefeitura com a ameaça de cassaçao das concessoes pelo entao prefeito Antonio Imbassahy fez o Setps recuar.
Revolta do buzu
O centro da cidade parou por quase tres horas, ontem pela manha, com a manifestaçao dos estudantes contra o anúncio de reajuste das tarifas garantido por uma liminar e com açao ainda na Justiça. Foi uma manifestaçao em menor escala que as registradas em agosto de 2003, que ficou conhecida como a "Revolta do buzu" e paralisou a cidade em diversos pontos por vários dias.
O movimento teve início no dia 14 de agosto de 2003, com a primeira paralisaçao de ônibus na Lapa, e foi retomada, com força, por volta do dia 22 do mesmo mes, tendo atingido seu auge nos primeiros dias de setembro, quando se espalhou por vários pontos da cidade. Os pontos principais do movimento eram a regiao do Iguatemi (gargalo de trânsito em Salvador) e a Estaçao da Lapa. Houve confronto com PMs, gente voltando a pé para casa, ônibus quebrado, estudantes presos e até feridos em confronto com polícia. Para os estudantes, foi um marco histórico.
Os estudantes queriam a reduçao no valor da tarifa, de R$ 1,50 para R$ 1,30. A passagem nao baixou, mas eles saíram vitoriosos nao apenas por causa da grande mobilizaçao, mas também porque conseguiram o uso do smart card durante 365 dias no ano.
Na época, foram reativados e criados, respectivamente, o Conselho de Transporte e a Comissao de Desoneraçao do Transporte Público. O primeiro, em linhas gerais, seria o órgao encarregado de fiscalizar toda a política de transportes da cidade. Já a Comissao de Desoneraçao, encarregada de estudar e repensar o valor/percentual dos tributos que incidem sobre os insumos do transporte público, com a finalidade de reduzir a tarifa para o passageiro. Esse estudo seria em âmbitos municipal, estadual e federal.
Do Conselho de Transportes, integrado por representantes dos estudantes, das empresas de ônibus, da prefeitura, Câmara dos Vereadores e entidades civis, pouco se sabe de resultados práticos. O mesmo se pode dizer da Comissao de Desoneraçao, criada com a participaçao da prefeitura, empresários de ônibus e Câmara dos Vereadores, que ainda luta para acabar com os benefícios da gratuidade no sistema de transporte concedidos a diversas categorias.
Fôlego jovem ganha força durante a tarde
A sexta-feira de mobilizaçao dos estudantes em Salvador foi apenas uma prévia do que virá. Esta é a promessa dos manifestantes ao encerrarem rs 18h45 de ontem, na rotatória dos Barris, o ato público contra o reajuste da tarifa de ônibus. Os estudantes mostraram que estao dispostos a repetir a mobilizaçao de agosto de 2003 e garantem voltar rs ruas na próxima segunda.
Repetindo palavras de ordem muitas vezes cantadas em 2003, como "sou, estudante, eu sou, eu quero estudar, o Setps nao quer deixar...", os estudantes se concentraram, ontem r tarde, em frente ao Colégio Central e, depois de filarem as aulas, seguiram em direçao r Praça da Piedade. Eram 14h31 quando ocuparam a praça fazendo um apitaço. Muitos deles subiram no chafariz e empunharam a faixa "2,20 nao dá!".
Com mochilas nas costas, cara pintada ou simplesmente com a farda de colégios como Severino Vieira, Central, Salesiano, Estadual Senhor do Bonfim, Mário Augusto Teixeira, os estudantes rumaram, rs 14h54, para a Praça Municipal. O comércio parou na Avenida Sete, onde foram distribuídas bandeiras das entidades estudantis. O despachante Vanderlison Franga Nobre, 45 anos, esboçou um sorriso em solidariedade aos estudantes. "Eu acho ótimo isso aí. Pago R$ 10 todo dia para meus filhos irem para o colégio. Nao dá pra engolir esse aumento. Vai ter gente aí que vai morrer de fome", comentou.
A opiniao do despachante é partilhada pela comerciária Alzira Alves, 47 anos. Ela trabalha na Avenida Sete e mora no Engenho Velho de Brotas. Disse que, se houver o reajuste, vai ter de ir para o trabalho a pé. "Ganho o piso de R$ 400, tá apertado, tenho dois filhos. Os estudantes estao certos, tem de reivindicar".
Depois de passar pela Praça Castro Alves, os cerca de 400 estudantes, segundo estimativas da Polícia Militar, chegaram à Praça Municipal. Em frente à Câmara de Vereadores, às 15h27, um grupo tentou invadir a Câmara; somente algumas lideranças conseguiram entrar para acompanhar a negociaçao entre representantes do poder público e o Setps. A reaçao de quem estava ao microfone do carro de som foi imediata: "Fecharam a casa do povo. Terroristas!", dizia um manifestante. Assessores da prefeitura se encarregaram de distribuir um informativo atestando que o prefeito Joao Henrique era contra o aumento. Os estudantes também reagiram: "Nao adianta o prefeito Joao Henrique mandar cartinha, recado, queremos uma resposta definitiva!", comentou uma das lideranças. Mais estudantes foram chegando ao longo da tarde, de colégios como o Estadual Landulfo Alves e o Hamilton de Jesus Lopes. Concentrados na praça, eles dançaram reggae, cantaram o Hino Nacional, alguns jogaram dominó, outros tomaram cachaça com refrigerante. E às 17h40, saíram em direçao ao Dique do Tororó. Ao passar pela Avenida J.J. Seabra, bloquearam o trânsito, bateram nos ônibus e, com disposiçao, seguiram para o Dique até a rotatória da Lapa, onde pararam o trânsito por volta de 15 minutos. A PM chegou, uma policial militar mais exaltada empunhou uma espingarda calibre 12 e partiu pra cima de um grupo, sendo acalmada pelos colegas. "Ele me chamou de abestalhada", retrucou a PM.
Galera mostra a cara
Assim que souberam do aumento da tarifa, anteontem à noite, alguns estudantes começaram a convocar, por telefone, colegas e amigos para a manifestaçao. Ontem pela manha, também nao faltou quem fosse dar o recado nas salas de aula. O argumento, defendido pela presidente da Uniao Nacional dos Estudantes (UNE), Maiara Oliveira, 22, era ganhar a rua para garantir o direito de continuar em sala.
A manifestaçao começou quando estudantes da Escola de Engenharia Eletromecânica da Bahia (Nazaré) interromperam o trânsito na Piedade, foram para o Campo Grande e se juntaram a secundaristas e universitários. Rs 14 horas, eles partiram da Praça da Piedade em uma passeata até a Praça Municipal. A idéia era forçar a prefeitura a derrubar a liminar que autoriza o reajuste, obtida pelos empresários.
Com os rostos pintados de verde e amarelo, munidos de bandeiras, microfones e carros de apoio, eles organizaram a passeata com palavras de ordem como "Ole, ole, ole, olá, se aumentar para R$ 2,20, o bicho vai pegar", "Salário de peao, tarifa de ladrao", "Ih, f.... ! Estudante apareceu" e o clássico "Estudante na rua, a luta continua". A promessa, feita em frente à sede da prefeitura e à Câmara de Vereadores, é parar a cidade, a partir de segunda-feira, caso o aumento de R$ 2,20 vingue.
OS ENGAJADOS
"Nao podemos admitir que a maioria das pessoas que usa o sistema público de transporte, que mal recebe um salário, pague esse preço"
Marcelo Gaviao, 22, presidente da Uniao Baiana dos Estudantes Secundaristas (Ubes).
"O Conselho Municipal dos Transportes foi uma promessa nao cumprida da prefeitura anterior. Também é inaceitável que o smart card seja emitido pelo sindicato patronal"
Juliana Cunha, 17, presidente da Associaçao Baiana dos Estudantes Secundaristas (Abes).
"Tem gente que vai ficar sem ter como ir para a escola ou trabalhar com esse valor de tarifa. É por isso que estamos nas ruas"
Antoniel Santos, 23, diretor do gremio do Colégio Central.

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