terça-feira, setembro 20, 2005

A Tarde On Line - Salvador-BA, 20/09/2005


Estudantes voltam a interditar ruas de Salvador

Os estudantes estão nas ruas de Salvador novamente desde a manhã desta terça-feira, 20, para protestar contra o reajuste da tarifa do transporte urbano de R$ 1,50 para R$ 2,20.

A Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET) informa que, neste momento, a região do Dique do Tororó, em frente ao estádio da Fonte Nova totalemnte está congestionada. O mesmo acontece na na Pituba, em frente ao Colégio Integral; e no Rio Vermelho, na Rua Oswaldo Cruz.

Os manifestantes também pararam os veículos na Avenida Joana Angélica, em frente ao Colégio Central, no sentido Nazaré; na Paralela; no bairro de Coutos, na Avenida Afrânio Peixoto, em frente ao Colégio Anísio Santiago, no bairro do Costa Azul, em frente ao Parque Costa Azul; e na Rua Chile. Nesses locais, o protesto de estudantes já acabou, mas a circulação de veículos ainda está lenta.

Os líderes do Movimento Estudantil explicam que os bloqueios continuam porque existe a possibilidade do Setps recorrer da decisão tomada pelo Tribunal de Justiça: “Só a liminar não resolve porque os empresários ainda podem recorrer. Só o fato de a liminar ser derrubada não garante nada”, afirma o presidente da União dos Estudantes Baianos (UEB), Juremar Oliveira. O presidente da UEB acrescenta que os atos de hoje ocorrerão apenas durante a manhã.

A intenção da mobilização desta terça-feira é para anunciar uma passeata programada para ocorrer na quarta-feira, 21, quando os estudante pretendem reunir mais de cinco mil pessoas, entre universitários, representantes de entidades sindicalistas, associações de bairros e associações estudantis, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), da União dos Estudantes Baianos (UEB) e da Associação Baiana de Estudantes Secundaristas (Abes).

A liminar concedida pela 4ª vara da Fazenda Pública ao Sindicato das Empresas de Transporte Público de Salvador (Setps) foi cassada no inicio da noite de segunda-feira, 19, pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Mas, mesmo assim, os estudantes utilizam as paradas estratégicas do trânsito na cidade para pressionar a Prefeitura a aprovar o Conselho Municipal de Transportes.

Setps pretende recorrer

O superintendente do Setps, Horácio Brasil, destaca que a solicitação de reajuste tramita normalmente na justiça. Ele também não descarta a possibilidade do sindicato recorrer da decisão do TJ: “Uma liminar cassada não significa que a ação principal será interrompida. Vamos continuar aguardando a decisão”, destacou Brasil, lembrando que as empresas já decretaram que o aumento não será cobrado até haver um pronunciamento oficial da atual administração.

Apesar de considerar a cassação um avanço, o secretário de Transportes Públicos, Nestor Duarte, lembra que a ação ordinária do reajuste da tarifa continua em trâmite na justiça.

“Entendo que as empresas vão insistir em algum aumento porque elas estão numa situação difícil. E a prefeitura tem compromisso com a tarifa justa e com transporte de qualidade para oferecer a população”, destaca Nestor Duarte.

O secretário acrescenta que a prefeitura encontrará um valor viável para a passagem, quando houver um diálogo entre a população e as empresas. Embora descarte a possibilidade de o prefeito autorizar o reajuste: “A linha da prefeitura é manter o preço e otimizar o serviço. O prefeito já definiu a sua posição, mas também abriu a discussão”, acrescenta.



Passeata bloqueia saída da Lapa

Gritando palavras de ordem como “aumento não, porque meu pai não ganha mensalão” e “ão, ão, ão, R$ 2,20 é o do feijão”, cerca de mil estudantes de quatro colégios tomaram as ruas centrais de Salvador na manhã de ontem.

O movimento chegou a bloquear por meia hora a saída do Terminal da Lapa, na rótula do Vale dos Barris, provocando um engarrafamento de ônibus ao meio-dia. O protesto começou no Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (Cefet) e no Instituto de Educação Isaías Alves (Iceia), desceu a Avenida Joana Angélica e terminou na Praça Municipal.

A manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus contou com a participação de alunos do Complexo Escolar Oscar Cordeiro e das escolas estaduais Landulfo Alves e Hamilton de Jesus, que tentaram parar a Avenida Jiquitaia, por volta das 10 horas.

Integrantes da Polícia Militar impediram que os estudantes fechassem a pista, não deixando que ficassem sentados numa faixa de pedestre debaixo da sinaleira no momento em que abrisse o sinal. Depois de sair da Cidade Baixa, intensificaram o protesto no centro da cidade.

A manifestação na porta do Cefet começou pouco depois das 10 horas. Os alunos realizaram uma rápida reunião para discutir a proposta de reajuste da tarifa de 46% e depois levantaram opções para que o percentual não seja tão alto. Logo depois, um grupo saiu em direção ao Iceia, no Barbalho.

Em seguida, passou pela porta do Severino Vieira e se dirigiu para o Colégio Central, provocando um demorado engarrafamento na Avenida Joana Angélica. Nos dois colégios, foram poucos os alunos que aderiram ao protesto.

Na frente da passeata, os estudantes estenderam um grande faixa, onde se lia “passe livre já” e “aumento não, porque meu pai não ganha mensalão”. Outra palavra de ordem gritada na manifestação foi a “ha, ha, ha, não tem nada que aumentar”.

O grupo alcançou a Praça da Piedade, onde fez uma breve pausa para o discurso de uma liderança, e rapidamente rumou para o Terminal da Lapa, o maior da cidade. No local, ocuparam a pista da rótula do Vale dos Barris, bloqueando a saída dos ônibus do terminal e o tráfego no sentido Dique do Tororó/Politeama.

Os estudantes ficaram na frente dos veículos e até usaram dois contêineres de lixo, que colocaram no meio da pista. Estudantes chegaram a tocar fogo no lixo de uma das caixas, o que forçou a chamada de um carro do Corpo de Bombeiros para apagar o fogo.

O bloqueio durou cerca de meia hora, provocando um grande engarrafamento na saída do terminal e na pista do Dique do Tororó.



Protestos levam caos ao trânsito
Estudantes bloqueiam Estação da Lapa e provocam congestionamentos em vários pontos da cidade

O primeiro dia útil da semana foi marcado pelo caos no trânsito gerado pela manifestação dos estudantes. Sem lideranças ou mesmo tendo à frente entidades representantes da categoria, alunos de colégios como Manoel Novaes, Cefet, Landulfo Alves e Odorico Tavares interditaram ruas e provocaram longos engarrafamentos por toda a cidade, principalmente na área central.

O momento mais crítico, ontem, foi o final da tarde, horário habitualmente de pico. Quem estava no centro de Salvador teve de exercitar a paciência na volta para casa.

Um grupo de estudantes fechou a Estação da Lapa por mais de duas horas, das 17 horas às 19h30, filas de ônibus se formaram ao longo do Dique, rotatória dos Barris e adjacências. Centenas de passageiros se acumularam nos pontos de ônibus e quem estava na Lapa optou entre esperar sentado ou andar na tentativa de se livrar do bloqueio.

A mobilização começou de maneira descentralizada. No Corredor da Vitória, por volta das 14h30, um grupo de estudantes saiu em passeata do Colégio Odorico Tavares e estacionou em frente ao Edifício Morada do Campo Grande, interditando o trânsito.

No mesmo horário, cerca de 100 alunos que estavam em mobilização em frente à prefeitura municipal decidiram sair em marcha até o Campo Grande. O grupo passou pela Ladeira da Praça, seguiu pela Rua do Gravatá, Rua Jaqueira Freire e Rua da Mangueira, até o Colégio Estadual Mário Augusto Teixeira de Freitas, onde ganhou a adesão de mais estudantes.

Com apitos, gritando palavras de ordem, os estudantes passaram pela Avenida Joana Angélica, provocando novo congestionamento. Eles chegaram ao Campo Grande por volta das 16h30. Ali estavam os alunos do Odorico Tavares e outras instituições de ensino.

Sem informação sobre o que estava acontecendo, os estudantes propagavam boatos de que a decisão judicial sobre o aumento da tarifa já havia sido divulgada. Quem estava no Campo Grande resolveu, às 17h15, encerrar a mobilização com a oração do Pai-Nosso, assumindo o compromisso de voltar às ruas hoje.

E enquanto uns voltaram para casa, outros seguiram para a Estação da Lapa. Num primeiro momento, os estudantes bloquearam a rotatória dos Barris no sentido Campo Grande e saída da Lapa. Depois, seguiram pela pista da direita até a saída dos ônibus.

Houve desentendimento entre os próprios estudantes quanto ao desbloqueio ou não de parte da via. Policiais militares e agentes da SET assistiram a tudo sem envolvimento. O agente da SET Geraldo Mota disse que a SET não iria intervir. “Estamos só observando, não temos como fazer nada, o problema é de policiamento”.

O tenente PM Balta disse que estava esperando reforço para desbloquear um lado da via. Mais de 20 policiais chegaram e os PMs apenas assistiram à manifestação dos estudantes. Uma PM à paisana acompanhou os estudantes desde as 13h30 na Praça Municipal e informou ao comando todos os passos por um celular.

A manifestação dividiu opiniões e deixou motoristas e pedestres exaustos no meio do caos. A auxiliar de odontologia Janaíra Santos, 36 anos, ficou mais de três horas no ponto esperando o ônibus para o bairro da Liberdade. Reclamou apenas do cansaço. “É um cansaço, mas vale a pena. Vai ficar apertado. Se subir a passagem amanhã mesmo, não sei o que vou fazer, vou ter de pedir emprestado”, comentou.

A vendedora Maria da Conceição Santos, 43, concorda. “Eu acho justo porque eles estão reivindicando para todo mundo”. Preso no engarrafamento por quase uma hora, e 40 minutos atrasado para o plantão no Hospital Espanhol, o médico José Antônio Queiroz avaliou que a reivindicação era justa, mas classificou a situação instaurada como “baderna” e criticou o poder público.

“Isso é falta de administração, de governo, a cidade tem de ter ordem e o governo não impede essa baderna. Se querem reivindicar, vão pra frente do fórum, da casa do desembargador, não é assim, prejudicando todo mundo”, bradou.

Opinião respaldada pelo autônomo Milton Dias, 59, passageiro do ônibus da empresa Ondina, linha 1022, de Praia do Flamengo, que teve o vidro quebrado. “Isso é um prejuízo para as pessoas que precisam do ônibus. A culpa é dos governos”.

Eles prometem repetir a dose hoje, caso o Setps ganhe na Justiça o direito de reajustar a passagem para R$ 2,20.

Pista livre após negociação

Somente depois que as lideranças do movimento negociaram com os policiais militares é que a interdição da pista foi suspensa. Durante a interrupção do tráfego, não foram vistos no local viaturas e agentes da Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET). Da rótula dos Barris, os estudantes foram em direção à Praça Municipal, onde encerraram o protesto por volta das 15 horas.

A manifestação contou, em sua maioria, com alunos do Cefet, principalmente dos 2º e 3º anos dos ensinos médio e técnico. “Este percentual solicitado pelos empresários dos transportes é absurdo. Penso que é mais uma tática para negociar com a prefeitura e ser aprovado um mais baixo”, disse Natane Oliveira, aluna do 2º ano do centro.

O seu colega do 3º ano Cícero Souza Rauh lembrou que, no Rio de Janeiro, existe passe-livre para os estudantes e defendeu o mesmo benefício para os estudantes de Salvador. Argumentou que há muitos pais de família desempregados e que a distribuição de renda na cidade e da Bahia é uma das piores do País.

O aluno da Escola Solange Ortélio Franco, situada na Rua Direta do Uruguai, Lucas Araújo Santana afirmou que, o preço da passagem de ônibus aumentando para R$ 2,20, vai ficar difícil para os pais que recebem o salário mínimo manter seus filhos na escola. “Imagine os que têm três ou mais filhos na escola e pagam a meia-passagem?”, indagou.

A manifestação foi organizada pela Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes (Conlute), que faz oposição dentro do movimento estudantil à União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes) e à União Nacional dos Estudantes (UNE). O movimento independente quer integrar a comissão de negociação com a prefeitura, a partir da reunião de 17 grêmios estudantis e mais oito pró-grêmios.

“Somos contra qualquer percentual de reajuste da tarifa e a favor do passe-livre”, disse Bruno Tito, aluno do curso no nível superior de química e técnico do Cefet e coordenador da Conlute. Para ele, os empresários solicitaram um aumento de 46% para negociar com a prefeitura, a Câmara de Vereadores e os demais segmentos sociais.

Contrário a que os estudantes sejam representados pelas tradicionais entidades estudantis, defende que um grupo de grêmios participe da comissão de negociação, da qual participam diversos setores. Bruno disse não acreditar em novas soluções para baratear a tarifa a partir do Conselho Municipal dos Transportes, que está sendo reativado pelo prefeito João Henrique.

Mas defende o subsídio federal ao óleo diesel para o transporte urbano como uma das alternativas para baratear a tarifa.

A coordenação do Conlute pretende continuar a mobilização dos estudantes contra o reajuste da tarifa dos ônibus. Marcou para amanhã, a partir das 9 horas, um novo protesto saindo da porta de vários colégios na cidade. Hoje, realiza uma plenária de grêmios estudantis no Cefet.

Protesto também na Jequitaia

Cerca de 100 estudantes das escolas estaduais Landulfo Alves e Hamilton de Jesus, do Complexo Escolar Oscar Cordeiro, tentaram, a partir das 10 horas, interromper o trânsito de ônibus na Avenida Jiquitaia, no sentido Calçada/Terminal da França, mas foram impedidos por policiais militares. Os alunos chegaram a sentar na faixa de pedestre debaixo da sinaleira defronte do estabelecimento, mas foram imediatamente retirados.

No complexo, estudam cerca de cinco mil alunos. O presidente do grêmio estudantil da Escola Landulfo Alves afirma que a insatisfação dos estudantes com a proposta de reajuste da tarifa dos empresários de ônibus é grande.

“Os pais dos alunos estão sem dinheiro porque recebem baixos salários. Além disso, os ônibus que circulam em vários bairros estão em situação precária, não oferecem conforto e nem um nível de qualidade para que a passagem custe o preço pedido”, assinalou.

Na manifestação, o diretor da APLB/Sindicato, Clóvis Rios Fetal, e os estudantes protestaram contra o que chamaram de ação violenta do comandante da 16ª Companhia Independente da Polícia Militar, major Oriosvaldo, que sexta-feira passada dispersou o protesto empurrando duas alunas.

Uma delas, Camila Soares, aluna da turma M9 do 1º ano do ensino médio, afirmou que estava sentada na pista quando o oficial chegou e a empurrou, com um cassetete na mão.

Ontem, o major comandou cerca de 20 policiais que atuavam na dispersão dos estudantes para liberar a pista e não deixar que provocassem um grande engarrafamento do lado da Calçada.