segunda-feira, setembro 19, 2005

Estado de Minas - Belo Horizonte-MG, 19/09/2005


Semana Nacional do Trânsito deste ano prioriza pedestres
Escolas ainda engatinham nas disciplinas que ensinam as crianças a respeitarem a lei na travessia de ruas e a se tornarem adultos responsáveis ao volante, conforme determina o CTB

A pequena Thaís Amanda Rodrigues, de 9 anos, aluna de uma escola municipal de Belo Horizonte, aprendeu no Circo Transitando Legal, da BHTrans, na semana passada, que só pode cruzar uma avenida se o sinal de pedestres estiver no verde. “No vermelho, nunca”, diz a menina. Gabriel Ferreira Carvalho Dilly, de 7, que estuda num dos colégios particulares mais tradicionais da capital, deixa escapar que, às vezes, seu pai não usa o cinto, assim como Bernardo Ferreira Torres, da mesma idade. “Tem dias que minha mãe vai de casa até a farmácia e não usa o cinto. Mas é porque o caminho é curto”, revela. A estudante Daiana Lima de Araújo, de 16, não sabia e também não aprendeu com os pais nem na sala de aula que, quando um pedestre está no meio da rua ou na faixa para atravessar, o motorista é obrigado a parar e dar a preferência a quem atravessa.

As mudanças de comportamento e educação de uma população não caem do céu: passam prioritariamente pela instrução e pela conscientização. No entanto, o programa de educação para o trânsito nas escolas, previsto pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) para ser promovido desde o ensino infantil até o superior, em vigor desde 1998, ainda caminha a passos lentos. Segundo o código, cabe ao Ministério da Educação (MEC) promover a adoção, em todos os níveis de ensino, de um currículo interdisciplinar sobre segurança de trânsito, além de capacitar professores e multiplicadores.

Por sua vez, a Secretaria de Educação Básica do MEC diz que o ministério oferece os Parâmetros Curriculares Nacionais, para orientar escolas sobre como tratar vários temas no currículo escolar, mas a definição do conteúdo cabe às instituições.

Em Minas Gerais, desde 1994 quatro projetos de lei foram apresentados na Assembléia Legislativa para incluir o tema na grade curricular, mas acabaram arquivados. Segundo a superintendente de Educação da Secretaria de Estado de Educação de Minas, Raquel Elizabete de Souza Santos, criar uma disciplina exclusiva sobre o tema sobrecarregaria a carga horária nas escolas.

Na prática, o assunto é abordado por algumas instituições, como tema transversal e, na família, que também deve dar o exemplo, nem sempre as crianças e jovens têm bons exemplos. “Meu pai já passou no sinal vermelho e estacionou no lugar errado. Aprendi na Transitolândia (projeto pedagógico de educação para o trânsito da Polícia Militar de Minas Gerais) que isso é proibido e briguei com ele”, conta Pedro Santos, de 8. Crianças e jovens fazem parte de um público formado 100% por pedestres, foco da campanha deste ano da Semana Nacional do Trânsito, comemorada esta semana em todo o País.

Na Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (Smed), não há registros de trabalhos sobre trânsito desenvolvidos nas escolas, segundo a assessoria de imprensa. A rede municipal tem 181 estabelecimentos que atendem 177 mil estudantes, nos ensinos infantil, fundamental e médio. Para reverter esse quadro, está sendo estudado um convênio entre BHTrans e Smed para a inclusão do tema em sala de aula. “O projeto deve estar nas escolas no início de 2006. A idéia é capacitar os professores para desenvolver o tema em disciplinas como física. Por que não trabalhar com a idéia de questionar com os alunos, por exemplo, a quantos metros uma pessoa de 70 quilos é arremessada, se atropelada por um carro a 100km/hora, que pesa 800 quilos? São casos reais, que acontecem no cotidiano”, diz o gerente de Educação para o Trânsito da BHTrans, Eduardo Lucas.

Transversalidade

Na rede estadual de ensino, não há disciplina específica sobre trânsito, mas a superintendente de Educação, Raquel Elizabete Santos, garante que as instituições abordam a temática por meio da transversalidade. “Professores de matemática e física usam dados de trânsito para abordar um tema da disciplina. O assunto faz parte do projeto pedagógico da escola e do desenvolvimento do currículo, e as escolas podem usá-lo da maneira que acharem melhor: por meio de temas específicos em sala de aula, palestras e eventos”, diz.

Há mais de dez anos, convênio entre a Secretaria de Estado da Educação e o Detran/MG busca capacitar professores para tratar melhor a educação para o trânsito nas atividades escolares. Desde 2000, o programa já capacitou 2,6 mil professores, menos de 10% dos 280,2 mil totais, das redes pública e privada em todo o Estado. “Minas é muito grande e grande parte dos professores do interior não tem habilitação. O curso é ministrado para grupos de professores das superintendências regionais, que depois serão multiplicadores do conhecimento adquirido. Nossa preocupação é formar a criança como cidadã para o trânsito”, explica a coordenadora de Educação de Trânsito do Detran/MG, Maria Cecília Lopes de Abreu.

Mesmo sem ter carro em casa, o aluno Raul Lucas de Almeida Gomes, de 8 anos, da Escola Municipal Emídio Beruto, no bairro Santa Inês, Leste da capital, conta que aprendeu algumas regras na sua visita ao espaço da BHTrans. “Sei que o carro tem sempre que respeitar o pedestre. E a nossa mãe tem que segurar no nosso braço e não na mão, para atravessar a rua”, conta.